segunda-feira, 12 de março de 2012

Simone de Beauvoir - uma foto de Art Shay




O fotógrafo Art Shay fez essa célebre foto em Chicago em 1952. Simone de Beauvoir era filósofa existencialista e ícone feminista. Art Shay era amigo de seu amante da época, o escritor Nelson Algren.

O fotógrafo viu a cena pela porta entreaberta da sala de banho e a eternizou para sempre. “Como jovem fotógrafo da Life Magazine, eu sempre levava minha Leica comigo. E esse dia não era exceção.

Estritamente falando, sim essa fotografia foi roubada, segundo uma ótica feminista. Eu me encontrava então nessa situação, fotógrafo estagiário da Life Magazine (inicialmente contratado para carregar as sacolas e escrever as legendas), quando eu vi Beauvoir sair do banho e ficar se penteando na frente do espelho. Eu rapidamente tirei duas ou três fotos e ela escutou os cliques. "Você é um rapaz malvado", ela me disse, no entanto, ela nem me pediu para que eu parasse de fotografar, nem fechou a porta, para mim, Madame não era "uma instituição" nessa época, era acima de tudo a amante estrangeira do meu amigo”, afirmou o fotógrafo em entrevista para a revista francesa “Le Nouvel Observateur” em 2008.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A Evolução – Desmond Morris


Para o zoólogo, o ser humano é um macaco sem cauda com um cérebro enorme. O que mais surpreende nele é seu incrível sucesso como espécie. Enquanto outros macacos se escondem em seus últimos refúgios, aguardando a chegada das correntes que vão aprisioná-los, 6 bilhões de humanos ocupam quase todo o globo, espalhando-se tanto e com tal velocidade a ponto de mudar drasticamente a paisagem como uma praga de gafanhotos gigantes.

            O segredo desse sucesso é sua capacidade de viver em agrupamentos cada vez maiores, onde, mesmo na mais alta densidade populacional, são capazes de se adaptar às tensões da vida e continuar procriando sob condições que qualquer outro macaco acharia insuportáveis. Além dessa capacidade, existe ainda uma curiosidade insaciável que os faz buscar sempre novos desafios.

Essa combinação mágica de sociabilidade e curiosidade foi possível graças a um processo evolucionário chamado neotenia, que permite aos humanos manter caracteres juvenis na vida adulta. Outros animais brincam quando são jovens, mas perdem essa capacidade quando amadurecem. O homem continua brincando e se divertindo por toda a vida – é um Peter Pan que nunca cresce. Naturalmente, quando se tornam adultos, os homens dão nomes diferentes a essa brincadeira: chamam-na arte ou pesquisa, ou esporte ou filosofia, música ou poesia, viagem ou divertimento. Como as brincadeiras infantis, todas essas atividades envolvem inovação, risco, exploração e criatividade. E são elas que nos tornam verdadeiramente humanos.



segunda-feira, 5 de março de 2012

Julio Castanõn e Manfredo de Souzanetto


obra de Souzanetto


 
Poema de Julio Castañon Guimarães

Fechada a porta que se abriu
e fechou para tantas narrativas
- vida e morte de uma casa -,
hoje, mais do que guardar
o que pudesse estar dentro,
onde então só o vazio,
guardaria o que está fora
e só tem a via da dispersão.
Gonzos calados, resiste,
absorta, a porta maciçamente,
despida de vestígios,
quando tudo em volta derrui,
paredes e personagens,
de modo que, com esse aspecto férreo
que lhe deram seu caráter e o tempo,
se elança, a porta,
como imensa chapa,
intervenção que se interpõe
no espaço que ela, a porta, abre.

sexta-feira, 2 de março de 2012

[MASP], poema de Gabriel Pedrosa



[MASP]
Gabriel Pedrosa



(masp

sempre que
passo o espanto
vão
o respiro
certa ideia de casa
e escondido o desejo
de que a laje rebente

pássaros)




NADIA COMANECI - Danilo Bueno




NADIA COMANECI
Danilo Bueno



Tudo assiste crescer em seu mergulho: astros expandidos, espelhos imemoriais. Tesa de intensa delicadeza desenha a teia certeira, estrita esgrima com a brisa, sem arrimo ou amarras, perdura o arco dorsal enquanto desmorona o fôlego suspenso dos metais – vôo que anula o entorno e batiza o desgoverno: múltiplo rebento do movimento, um impulso para o centro de si até construir o desfecho: o solo brotando para a planta dos pés.

Publicado em: Modo de usar e Co. – Nov./2007.









AMOR E CRIME COM HEIDEGGER




Trecho de: "Minha vida de amor e crime com Martin Heidegger"


UM INTERROGATÓRIO



- Então, se casaram em 1989?

- Sim.

- Era um casamento feliz?

- Era um casamento.

- Feliz?

- Durante algum tempo eu o julguei suportável.

- Suportável, apenas?

- Vocês são homens. Ignoram que um marido raramente é um companheiro.

-Por que deixou de pensar que era um casamento feliz?

- Era... tinha se tornado, naquele momento, algo como uma associação entre dois cães. Não havia no nosso casamento nada além de comida e sexo. Era um casamento de cães.

- Procurou uma compensação fora de casa?

- Não. Os homens me causavam um pouco de repugnância, pelo menos quando eu não era indiferente. A afeição que eles dão, é como um doce dado a alguma criança de quem queremos alguma coisa. É sempre a mesma coisa que os homens esperam de uma mulher. Sexo e servidão.

- Contudo, foi com o sexo que o suposto Heidegger conseguiu sua submissão?

- Eu não era submissa a ele. O que ele me ofereceu, a princípio foi minha própria... satisfação.

- Foi então porque ele demonstrava maior consideração nas relações ente os dois que se tornou sua amante?

- Um homem capaz de tal consideração é um homem com o qual podemos, com o qual queremos viver.

- Poderíamos dizer que o sexo foi o motivo dominante de sua aventura com o suposto Heidegger?

- Não. Foi o sentimento de dignidade. Com Heidegger eu era eu mesma.

***

Ele deu uma tragada no cigarro e eu sentia a cabeça vazia. Um céu com nuvens agitadas correndo em todas as direções. Sim, ele estava certo, eu estava ali para fazer amor com ele, mas ao mesmo tempo isso me assustava.

            -Então, sente aqui. Não, tire a roupa. Quero vê-la nua.

Sim, e eu queria que ele me visse nua. Saboreei o prazer antecipado. Abro dois botões da blusa e tiro-a pela cabeça, depois abro o zíper da minha saia e a deixo cair. Tiro a calcinha e me esforço para tirar o fecho do sutiã. Durante esse tempo ele tirou apenas a calça. Não usava cueca. Está com uma ereção e me observa. Seu sexo é diferente do de meu marido Mark. Não vi muitos sexos masculinos em minha vida, mas sei que cada um tem uma aparência própria. O de Mark é branco e cilíndrico, rosado e branco, regular. O de Heidegger é mais grosso, mais escuro, com a ponta vermelho-escura, violento e selvagem, enquanto o de Mark é o de um jovem impetuoso.

-Venha cá.

Ele se levanta, me abraça e me beija. Seus lábios são muito mais carnudos que os de Mark. Eles envolvem a minha boca e minha língua, depois me devora inteira. Ele está ajoelhado e repete o que havia feito na noite anterior. Suga o meu clitóris e introduz a língua entre meus lábios. Depois, suga os meus seios e me beija outra vez, com a mão no meu sexo, um dedo curvo dentro dele e deixo escapar um pequeno grito. A precisão dos seus gestos, o modo com que suas mãos se apossam de mim me embriagam completamente. Ele me deita suavemente no sofá e depois de separar minhas pernas, recomeça a lamber e sugar meu sexo. Eu grito outra vez, e mais outra. Levanto-me, seguro o sexo dele para ter certeza de que ele não está me usando, que me deseja. Sim, ele me deseja e eu ajoelho na frente do seu sexo, eu o beijo, manchando-o de batom, o acaricio com a língua, como para lavá-lo, e o sugo como ele há pouco sugou meus seios. Uma refeição. Uma refeição de bebês.

Ele me faz levantar, me deixa deita no sofá, abre as minhas pernas. Apóia-se sobre as almofadas e me penetra com uma lentidão, uma lentidão... Uma de minhas pernas está sobre seu ombro, a outra no chão, e o sofá desliza na água, balançando suavemente. Cada vez que ele avança, respiro profundamente, cada vez que ele se afasta, solto o ar dos pulmões. O tempo, é isso, o vaivém de um sexo em outro sexo, mais real do que todos os tique-taques dos relógios, dos pêndulos. E chega a hora, eu grito, ele responde com um rugido. Tudo pára. Eu o puxo para mim, o beijo, murmuro palavras doces.

- Martin Heidegger.

Dizer um nome, dizer o nome do amado, uma missa.


quinta-feira, 1 de março de 2012

SINAIS DE PONTUAÇÃO - T. W. ADORNO


(Parte 1)


            Quanto menos os sinais de pontuação, tomados isoladamente, estão carregados de sentido ou expressão, quanto mais ele se tornam, na linguagem, o pólo oposto aos nomes, tanto mais decisivamente cada um deles conquista seu status fisiogmônico, sua expressão própria, que certamente é inseparável da função sintática, mas não se esgota nela.

O ponto de exclamação não se assemelha a um ameaçador dedo em riste? Os pontos de interrogação não se parecem com luzes de alerta ou com uma piscadela? Os dois-pontos, segundo Karl Kraus, abrem a boca: coitado do escritor que não souber saciá-los. Visualmente, o ponto-e-vírgula lembra um bigode caído; é ainda mais forte, para mim, a sensação de seu sabor rústico. Marotas e satisfeitas, as aspas [“”] lambem os lábios.

            Todos são sinais de trânsito; afinal, estes os tornaram como modelo. Pontos de exclamação correspondem ao vermelho; dois-pontos, verde; e os travessões ordenam stop. Mas foi um erro da Escola de George confundi-los, por causa disso, com sinais de comunicação. Eles são sobretudo sinais de elocução. Em vez de zelosamente servirem ao trânsito entre a linguagem e o leitor, funcionam como hieróglifos no tráfego que acontece no interior da linguagem, em suas próprias vias. É supérfluo, por isso, omiti-los como supérfluos: assim eles apenas se escondem. Cada texto, mesmo o mais densamente tramado, cita-os por si mesmo, espíritos amistosos cuja presença incorpórea alimenta o corpo da linguagem.

            Em nenhum de seus elementos a linguagem é tão semelhante à música quanto nos sinais de pontuação. A vírgula e o ponto correspondem à cadência interrompida e à cadência autêntica. Pontos de exclamação são como silenciosos golpes de pratos, pontos de interrogação são acentuações de frase musicais no contratempo, dois-pontos são acordes de sétima da dominante; e a diferença entre vírgula e ponto-e-vírgula só será sentida corretamente por quem percebe o diferente peso de um fraseado forte e fraco na forma musical. Mas talvez a idiossincrasia contra os sinais de pontuação, surgida há cinqüenta anos e da qual nenhuma pessoa atenta pode escapar, seja menos a revolta contra um elemento ornamental do que a expressão da forte divergência entre música e linguagem. Seria muito difícil considerar como obra do acaso, entretanto, que o contato da música com os sinais lingüísticos de pontuação esteja vinculado ao esquema de tonalidade, um esquema que nesse meio-tempo se desintegrou. Nesse sentido, os esforços da nova música poderiam ser corretamente descritos como a busca de sinais de pontuação sem tonalidade. Mas se a música é forçada a preservar, nos sinais de pontuação, a imagem de sua semelhança com a linguagem, também a linguagem assume sua semelhança com a música, na medida em que desconfia desses sinais.

Schoenberg


            A diferença entre o ponto-e-vírgula grego [‘], aquele ponto bem alto que deseja impedir que se baixe a voz, e o alemão [;], cujo ponto sobreposto ao traço acaba consumando esse rebaixamento, ao mesmo tempo em que, ao incorporar a vírgula, deixa a voz em suspenso, é verdadeiramente uma imagem dialética. Essa diferença parece imitar aquela entre as Eras Antiga e Cristã, a finitude rompida pelo infinito, ainda que a comparação seja perigosa, pois talvez os sinais gregos só tenham sido inventados pelos humanistas do século XVI. A história se sedimentou nos sinais de pontuação, e é justamente essa história, para além do significado ou da função gramatical, que a partir deles nos olha de frente, congelada e ainda um pouco trêmula. Quase seríamos tentados a considerar como os verdadeiros sinais de pontuação apenas os da escrita tradicional alemã [Fraktur], cuja imagem gráfica preserva traços alegóricos, enquanto os da escrita romana [Antiqua] corresponderiam a meras imitações secularizadas.

A essência histórica dos sinais de pontuação vem à luz no modo como, neles, o que se torna obsoleto é justamente o que um dia foi moderno. Pontos de exclamação tornaram-se insuportáveis como gestos de autoridade, com os quais o escritor pretende introduzir, de fora, uma ênfase que a própria coisa não é capaz de exercer, enquanto a contrapartida musical de exclamação, o sforzato, é ainda hoje tão imprescindível quanto no tempo de Beethoven, quando marcava a irrupção da vontade subjetiva da trama. Os pontos de exclamação, porém, degeneraram em usurpadores da autoridade, asserções de importância. Foram eles, no entanto, que cunharam a figura gráfica característica do Expressionismo alemão. Sua proliferação apoiava um protesto contra as convenções, e ao mesmo tempo era um sintoma da impossibilidade de se modificar a linguagem por dentro, enquanto ela era abalada por fora. Eles sobrevivem como marcas da fratura entre a idéia e as realizações de cada época, e sua evocação impotente os redime na memória: desesperados gestos de escrita, que buscaram em vão escapara para além da linguagem. O Expressionismo se consumiu nas chamas desse gesto, prescreveu a si mesmo, como os pontos de exclamação, o efeito que buscava, e por isso se transformou em fumaça, junto com eles. Nos textos expressionistas, os pontos de exclamação se assemelham às cifras milionárias das cédulas do período da inflação alemã.

            Os diletantes literários podem ser reconhecidos por seu desejo de juntar tudo com tudo. Suas obras conectam as frases por meio de partículas lógicas, mesmo que as relações afirmadas por essas partículas não sejam válidas. Para quem não é capaz de pensar algo verdadeiramente como uma unidade, qualquer coisa que sugira desintegração ou descontinuidade torna-se insuportável; apenas quem consegue apreender o todo é capaz de entender as cesuras, que podem ser reconhecidas, entretanto, com o auxílio do “traço do pensamento” [Gedankenstrich]. Nele, o pensamento toma consciência de seu caráter fragmentário. Não é por acaso que, na era da progressiva desintegração da linguagem, esse sinal tenha sido negligenciado precisamente no caos onde cumpre sua função: onde separa o que pretensamente estaria ligado. O travessão ainda serve apenas para preparar surpresas traiçoeiras que, justamente por terem sido preparadas, já não mais surpreendem.

            O travessão sério: seu mestre inigualável, a literatura alemã do século XIX, foi Theodor Storn. Raramente os sinais de pontuação estiveram tão profundamente aliados ao teor da obra como os travessões em suas novelas, linhas mudas buscando o passado, rugas na face do texto. Com eles, a voz do narrador cai em um preocupado silêncio: o tempo inserido entre duas frases, nu e cru entre os dois eventos que se aproximam, é o tempo de uma herança pesada, que insinua a desgraça do contexto natural e do pudor de a ele se referir. É assim, com enorme discrição, que o mito se esconde no século XIX; buscando refúgio na tipografia.

Entre as perdas sofridas pela pontuação no porcesso de desagregação da linguagem está a barra transversal [/], usada por exemplo para separar os vesos de uma estrofe, quando estes são citados em um texto de prosa. Dispostos como estrofe, os versos destruiriam barbaramente o equilíbrio da linguagem, mas se fossem reproduzidos simplesmente como prosa causariam um efeito ridículo, porque a métrica e a rima soariam como um jogo de palavras feito ao acaso. O travessão moderno é demasiado brusco para realizar o que deve ser feito nesses casos. A capacidade de perceber fisiognomicamente tais diferenças é, no entanto, o pressuposto para todo uso adequado dos sinais de pontuação.

As reticências, que eram o meio preferido, na época do Impressionismo comercializado como “atmosfera”, para se deixar uma frase aberta a vários sentidos, sugerem a infinitude de pensamento e associação, justamente o que falta aos escritores de segunda categoria, que se contentam em simular essa infinitude por meio do sinal gráfico. Mas se aqueles três pontinhos, tomados da repetição de frases decimais na aritmética, são reduzidos a dois, como fez a Escola de George, então o que se pretende é continuar impunemente a reivindicar a infinitude fictícia, na medida em que se apresenta como sendo exato algo que, segundo seu próprio sentido, quer ser inexato. A pontuação utilizada pelo escrevinhador sem vergonha não é melhor do que a do escritor envergonhado.

 Texto retirado de "Notas de literatura" de T. W. Adorno