quarta-feira, 10 de outubro de 2012

 
 
 
Blake, poeta e profeta
Claudio Willer
 
 
Quantas boas vias de acesso dos leitores brasileiros à poesia de William Blake. Saiu mais uma tradução de O Casamento do Céu e do Inferno, pela editora Hedra, por Ivo Barroso, que já havia traduzido O Tigre (este poema, classificado como canônico por Harold Bloom, também foi traduzido, entre outros, por José Paulo Paes, Augusto de Campos, Paulo Vizzioli, Alberto Marsicano, e por Mário Alves Coutinho e Leonardo Gonçalves). Voltou à circulação a edição de Blake preparada por Paulo Vizzioli: Poesia e Prosa Selecionadas, agora pela Nova Alexandria. É recente William Blake, O Casamento do Céu e do Inferno e outros escritos, seleção e tradução de Alberto Marsicano, pela L&PM Pocket; versão revista e ampliada de outro Blake por Marsicano, na década de 1980. Continua em circulação O matrimônio do Céu e do Inferno, O livro de Thel, por José Antônio Arantes, da Iluminuras. Outra boa aproximação a Blake, através de Canções da Inocência e da Experiência, por Mário Alves Coutinho e Leonardo Gonçalves, pela Crisálida, de Belo Horizonte. E, pela Nephelibata, de Santa Catarina, sairão traduções de The book of Ahania, The book of Los e The song of Los por Floriano Martins, em meados de 2009.
Há exatos 200 anos, em 1809, Blake, precisando de dinheiro, fez uma exposição de suas gravuras, incluindo textos ilustrados. Apenas um crítico, do Spectator, visitou a mostra: escreveu que Blake devia ser objeto de pena, pois era apenas um pobre louco. Gravações – o modo escolhido por Blake para publicar, através de gravuras em cobre, tratadas uma a uma, com ilustrações e os textos – e originais permaneceram jogados, deteriorando-se, até sua descoberta por Dante Gabriel Rossetti e Swimburne, meio século depois da sua morte (em 1827, aos 70 anos), para terem a primeira edição realmente adequada em 1893, graças aos cuidados de William Butler Yeats.
Dentre essas edições de Balke – listei as mais recomendáveis – aquela de Marsicano merece interesse por trazer amostras do que Alfred Kazin (organizador do The Portable Blake da Penguin Books), chamou de poemas proféticos, e Keines, que preparou a edição de sua obra completa (Blake, Complete Writings, editado por Geoffrey Keynes, Oxford University Press), chamou de poemas simbólicos: entre outros, os extensos e torrenciais Milton e Jerusalem, e o enorme Vala or The Four Zoas (com 120 páginas na edição Keynes), que Blake não chegou a publicar; foi recuperado décadas após sua morte. Esse repertório do Blake mais complexo, ou menos imediatamente sedutor, será ampliado em breve, com a edição por Floriano Martins, pela Nephelibata.
Por algum tempo, houve estranheza diante da diferença, até contradição aparente, entre o Blake tão claro e preciso de O Casamento do Céu e do Inferno, e tão antológico, e não só pelo poema do tigre, das Canções da Inocência e da Experiência, e uma escrita paroxística, transbordante, dos poemas mais extensos. O juízo de valor, em favor das obras mais reduzidas e concisas, contrário aos excessos daquelas mais extensas, foi discutido por Alfred Kazin em The Portable Blake. Da mesma época (década de 1940), o ensaio que inaugurou um novo patamar da crítica blakeana (se não da ensaística literária em geral), Fearful Symmetry – A Study of William Blake de Northrop Frye (Princeton University Press). Mas neste, curiosamente, um viés oposto: empreendendo uma tarefa ciclópica, a interpretação de textos como Vala or The Four Zoas, põe algo de lado O Casamento do Céu e do Inferno. Vê-o como sátira na tradição de Swift e Sterne: O Casamento do Céu e do Inferno pertence à tradição da grande sátira.
Se os poemas longos de Blake contribuíram para consolidar sua reputação de louco, isso não impede sua decifração. Por exemplo, deste trecho de Milton: [1]
Esta é a Natureza do infinito:
Todas as coisas possuem seus próprios Vórtices, e quando um navegante da Eternidade
Passa este Vórtice, percebe que ele turbilhonante gira para trás
E penetra numa esfera que se engloba a si mesma como o sol, a lua, ou como um firmamento de constelada magnitude
Entretanto prossegue em sua maravilhosa trajetória pela terra,
Ou como forma humana, um amigo com o qual pode-se compactuar luminosamente a existência.
O olho humano, seu Vórtice abarcando, vislumbra o leste & o oeste
O norte & o sul, com suas vastas legiões de estrelas
O sol surgente e a lua no fulcro do horizonte
Os seus milharais e vales de quinhentos alqueires
A terra é uma planura infindável, e não como aparece
Ao ignóbil transeunte confinado às sombras da lua.
O céu é um Vórtice já há muito transpassado;
A terra, um Vórtice ainda intocado pelos navegantes da Eternidade. [...]
Toda fração de Tempo menor que um pulsar de artéria
Equivale a Seis Mil Anos.
Pois neste Ciclo é criada a obra do Poeta, e nele os Grandes Eventos do Tempo se iniciam e são concebidos
No fulcro de um instante, Pulsação arterial.
O céu é uma Tenda Eterna erguida pelos Filhos de Los;
E o vasto Espaço que o Homem contempla em sua morada
Na cobertura ou jardim no cimo de uma colina
De vinte e cinco pés de altura, é seu Universo; [...]
Tal é o espaço denominado Terra & tal sua dimensão
Enquanto essa falsa aparência que se apresenta ao racionalista
Como um Globo rolando através da Vacuidade, é uma decepção de Ulro.
E disto nem desconfiam o Telescópio ou o Microscópio;
Alteram os parâmetros dos Órgãos do Espectador, deixando intocados os objetos;
Pois cada Espaço maior que um Glóbulo vermelho de sangue Humano
É visionário e foi pelo martelo de Los criado.
E cada espaço menor que um Glóbulo de sangue estende-se
Ás larguras da Eternidade, da qual esta terra
Vegetal não é senão a mera imagem.
O Glóbulo vermelho é o insondável Sol por Los criado,
Para mensurar o Tempo & o Espaço aos Mortais a cada manhã.
Compare-se com este conciso (e famoso) poema de seu cadernos de notas:
Num grão de areia ver um mundo
Na flor silvestre a celeste amplidão
Segura o infinito em sua mão
E a eternidade num segundo.
Em uma condensação, Blake proclamaria, em O Casamento do Céu e do Inferno, que Um pensamento abarca a imensidão. A frase equivale a outra, epígrafe dos beats e de experiências com alucinógenos depois de inspirar o título de Huxley, As Portas da Percepção: Se as portas da percepção se desvelassem, cada coisa apareceria ao homem como é, infinita. Pois o homem se enclausurou a tal ponto que apenas consegue enxergar através das estreitas frestas de sua gruta.
Nada a estranhar na extensão temporal contida em um glóbulo de sangue, nos patamares de tempo e espaço dos trechos aqui citados de Milton. Alguém capaz de ver um mundo no grão de areia, para quem a eternidade podia caber em um segundo, relatou, em obras como Milton e Jerusalém, como eram o infinito e a eternidade.
O paradigma para avaliar os poemas mais complexos de Blake deve ser outro. A propósito dos apócrifos, dos textos apocalípticos dos primeiros séculos a.C. e d.C, Serge Hutin, em Les Gnostiques (Presses Universitaires de France, coleção Qui sais’je?), comenta os motivos pelos quais esse tipo de produção, especialmente aquela dos gnósticos, por muito tempo foi visto com desconfiança ou posto à margem por historiadores positivistas e teólogos racionalistas: Muitos historiadores ainda consideram o gnosticismo como um monumento de sonhos e devaneios bizarros, de incoerências, de mitos estranhos, de fantasmagorias desprovidas de todo interesse filosófico, e que não são, em definitivo, que um ramo particularmente degenerado do inquietante sincretismo religioso do primeiro e segundo século da nossa era.
Tais características – ser bizarro, esdrúxulo, um desafio ao racionalismo – também se ajustam a uma sensibilidade moderna: dela fazem parte a valorização do grotesco por românticos, ou do surreal e transgressivo hoje. A qualificação como monumento de sonhos e devaneios bizarros vale para especulações gnósticas e para Jerusalém e Milton de Blake, Aurélia de Nerval, Iluminações de Rimbaud ou Os Cantos de Maldoror de Lautréamont, entre outros que passaram de malditos a cultuados.
Foi por perceber isso que André Breton saudou a descoberta das “escrituras” gnósticas de Nag Hammadi em um texto de 1949, Flagrant délit. Declarando-se continuador de uma tradição esotérica na poesia cuja origem estaria no gnosticismo, o surrealista indagou como foi possível a tradição gnóstica conservar-se. Observou que isso não decorria necessariamente da transmissão direta: Será preciso admitir que os poetas sorvem, sem o saber, em um fundo comum a todos os homens, singular pântano cheio de vida onde fermentam e se recompõem sem parar os destroços e os restos das cosmogonias antigas, sem que os progressos da ciência lhes provoquem uma mudança apreciável? E sugeriu [...] um poder de absorção de ordem osmótica e para-sonambúlica dessas concepções tidas, ao olhar racional, por aberrantes. [...] Nessa floresta virgem do espírito, que margeia por todos os lados a região onde o homem conseguiu erguer seus marcos indicadores, continuam a rondar os animais e os monstros, pouco menos inquietantes do que em seu papel apocalíptico. Ao mencionar os animais e os monstros, apenas menos inquietantes do que em seu papel apocalíptico, encontrados entre os destroços e os restos das cosmogonias antigas, Breton lhes atribui valor oposto àquele conferido pelos racionalistas e positivistas. Pelas mesmas razões, já na década de 1930, Georges Bataille, o pensador da transgressão, já havia destacado o caráter perturbador, pelo baixo materialismo, por trazer os fermentos mais impuros, do gnosticismo.
A mitologia pessoal de Blake poderia ser interpretada como um sistema de metáforas para referir-se à opressão e à desigualdade; para atacar o sombrio panorama oferecido por uma primeira fase da industrialização, da implantação do mundo burguês, na Inglaterra. Seu monismo panteísta, declarado em O Casamento do Céu e do Inferno, também seria metáfora, porém da superação do status quo e da realização da utopia: outra face, o reverso da moeda. Corroboram essa interpretação as frases em tom triunfal do epílogo de O Casamento do Céu e do Inferno, intitulado Uma Canção de Liberdade: O IMPÉRIO CAIU! E AGORA O LEÃO & O LOBO TERÃO FIM! E seu notório envolvimento com acontecimentos de seu tempo, evidente em poemas como The French Revolution e América. Durante a Revolução Francesa, provocador, ostentava o barrete vermelho dos revolucionários.
Mas não basta interpretá-lo como crítico que usava categorias teológicase formulou mitologias na falta daquelas propriamente políticas. Conhecia o repertório político corrente em sua época. As estranhas divindades e cosmogonias não estão em sua poesia apenas pelo valor como alegorias. Expunha mitos enquanto tais, como realidades reveladas. É o que fica claro através de uma passagem como esta, de um de seus derradeiros textos, A Vision of the Last Judgement: O Juízo Final não é Fábula ou Alegoria, porém Visão. Fábula ou Alegoria são uma modalidade totalmente distinta e inferior de Poesia. Visão ou Imaginação é uma Representação do que Eternamente Existe, Real e Insubstituível. [...] Fábula é alegoria, mas o que os Críticos chamam de A Fábula é a própria visão. A Bíblia Hebraica e o Evangelho de Jesus não são Alegoria, porém Eterna Visão ou Imaginação de Tudo que Existe.(em Complete Writings de Blake, na edição Keynes – nas citações dessa edição, a tradução é minha).
Poetas preferem ser tomados por seu valor de face, em vez de serem racionalizados. Aquilo de que Blake falou – Urizen, Orc, o vale de Thel, Rintrah, os Zoas, Golgonooza, Palamobrom – era dado como real. Exigiu que o levassem a sério, que o lessem como profeta visionário e não como pensador abstrato.
Torna-se inevitável projetar na leitura de Blake sua teoria de opostos, a afirmação de que os contrários movem o mundo: portanto, movem a criação poética. E juízos de valor como este, de O Casamento do Céu e do Inferno: O homem que jamais muda sua opinião é como água estagnada & engendra os répteis da mente. Entender e aceitar seus desafios ao princípio lógico da identidade e não-contradição possibilita examiná-lo como místico, visionário e sonhador, ou poeta do sonho.
Há divergências na classificação de Blake como místico. Frye inicia a nota final de Fearful Symmetry com uma advertência: A palavra “místico” nunca trouxe nada senão confusão para o estudo de Blake. Já um especialista em misticismo, Gershom Scholem, deu uma resposta inequívoca: Blake representou o misticismo sem laços com qualquer autoridade religiosa, em companhia de Rimbaud e Whitman, também heréticos luciferianos; pois sua imaginação era estimulada por imagens tradicionais, ou da igreja católica oficial (Rimbaud) ou de origem hermética e espiritualista, subterrânea e esotérica (Blake). [2]
Scholem ainda distingue – a propósito de Blake, Rimbaud e Whitman – duas atitudes dos místicos, uma conservadora e outra revolucionária: uma atitude revolucionária é inevitável uma vez que o místico invalida o sentido literal das escrituras sagradas. Místico revolucionário: por isso, um contendor das religiões institucionais, do clero, frontalmente atacado ao longo de toda a sua obra, como nesta passagem de O Casamento do Céu e do Inferno:
Os poetas da Antigüidade animaram todos os objetos sensíveis com Deuses ou Gênios, nomeando-os e adornando-os com as propriedades dos bosques, lagos. cidades, nações e tudo o que seus dilatados sentidos podiam perceber.
Particularmente, estudaram o Gênio de cada cidade & país, colocando-o sob a égide de sua deidade mental.
Até que se formou um sistema, do qual alguns se aproveitaram e escravizaram o vulgo, interpretando e abstraindo as deidades mentais de seus respectivos objetos. Então surgiu o Clero;
Elegendo formas de culto dos mitos poéticos.
E proclamando, por fim, que assim haviam ordenado os Deuses.
Os homens então esqueceram que Todas as deidades residem em seus corações.
Vê-lo como místico, e mais, como visionário, encontra respaldo entre outros estudiosos de Blake; e em seu próprio testemunho. É um resumo de sua poética esta passagem de O Casamento do Céu e do Inferno:
Os profetas Isaías e Ezequiel jantavam comigo. Perguntei-lhes como se atreviam a afirmar que Deus falava com eles; e se não achavam que isto os tornava malditos & passíveis de perseguição. Isaías respondeu: “Jamais pude ver ou ouvir Deus dentro de uma percepção orgânica e finita; Meus sentidos descobriam o infinito em cada coisa, e como desde então estivesse convicto & recebesse o sinal que a voz da indignação sincera é a voz de Deus, alheio às conseqüências, escrevi.
Logo a seguir, outra frase reveladora, em um dito atribuído a Ezequiel: A filosofia do Oriente ensinou os princípios básicos da percepção humana.
Que percepção e que visões e audições são essas? Fica evidente pelo trecho citado que, para Blake, equivaliam-se a percepção de algo como experiência subjetiva ou como fato objetivo, exterior ao sujeito. Podem contribuir para a compreensão da poética visionária de Blake algumas observações de Breton publicadas em Le méssage automatique. Nesse texto de 1933, deixando de associar a escrita automática apenas ao inconsciente freudiano, o surrealista citou Myers, o psicólogo experimentalista que pesquisou imagens eidéticas, como os pós-efeitos visuais (quando olhamos fixamente para uma fonte de luz, e esta, alterada, permanece ao fecharmos os olhos). E concluiu com uma afirmação ousada: Toda a experimentação em curso seria de natureza a demonstrar que a percepção e a representação – que para o adulto ordinário parecem opor-se de uma maneira tão radical – não devem ser tidos senão como produtos da dissociação de uma faculdade única, original, da qual a imagem eidética dá conta e da qual se reencontram traços entre os primitivos e as crianças.
Aceita essa argumentação, visões e alucinações ganham o estatuto de percepções plenas: o visionário efetivamente vê; ou, no automatismo verbal, de fato ouve. Breton exemplificou com Santa Tereza d’Ávila, ao ver sua cruz de madeira transformar-se em crucifixo de pedras preciosas, e considerar essa visão ao mesmo tempo imaginada e sensorial. O exemplo o levou a uma tirada irônica: Tereza d’Ávila pode passar como alguém que comanda essa linha na qual se situam os médiuns e os poetas. Infelizmente, ainda não passa de uma santa.
Felizmente – adotando os critérios de Breton – Blake não foi apenas um santo, porém um poeta. E alguém que teria endossado a afirmação bretoniana de que percepção e representação são a mesma coisa, com o mesmo estatuto de realidade ou o mesmo valor de verdade. Suas visões dos profetas, do irmão falecido, e do restante, correspondiam à faculdade única, original a que se referiria Breton: a superação da dicotomia entre o mundo subjetivo e objetivo, comum aos médiuns e os poetas, e aos místicos. E coerente, se interpretada desse modo, com o monismo de Breton e com o Blake monista: não era o outro lado que se enxergava, pois a separação entre natural e sobrenatural fora superada.
Ao sustentar a realidade de suas visões, Blake formulou uma poética do delírio. Considerá-lo louco equivale a depreciá-lo, e seria injusto, por ignorar que Blake concluiu Jerusalém e The Everlasting Gospel no mesmo ano de 1820: um poema exorbitante em matéria de simbolismo, que pode ser classificado como delirante, e outro bem linear, pura argumentação, sem nenhum personagem de sua mitologia particular. Em The Everlasting Gospel, voltou a proclamar sua anti-ortodoxia; por isso, a relativização dos ensinamentos evangélicos:
A Visão do Cristo que tu vês
É a maior inimiga da minha visão.
A tua tem um grande nariz adunco como o teu,
A minha tem um nariz redondo como o meu.
A tua é a do Amigo da Humanidade;
A minha fala em parábolas aos cegos:
A tua ama o mesmo mundo que a minha odeia;
As portas do teu céu são os portões do meu inferno.
Sócrates ensinava o que Meletus
Detestava como a mais amarga Maldição de uma Nação,
E Caifás era em sua própria Opinião
Um benfeitor da Humanidade:
Ambos lemos a Bíblia noite e dia,
Mas tu lês negro onde eu leio branco.
Cada parte do poema começa com uma pergunta:
Foi Jesus gentil, ou deu ele
Algum sinal de Gentileza? [...]
Foi Jesus Humilde? ou deu ele
Quaisquer provas de Humildade? [...]
Foi Jesus Casto? ou deu ele
Quaisquer Lições de Castidade? [...]
Ensinou Jesus a dúvida? [...]
Foi Jesus Nascido de uma Virgem Pura
De Alma estreita & aparência recatada? [3]
A resposta é sempre negativa: apoiando-se nos evangelhos, mostra que Jesus Cristo não foi gentil, nem humilde, nem casto, nem nascido de uma virgem. Mas o que sobraria do ensinamento evangélico? Para Blake, apenas o perdão: Não há uma Virtude Moral que Jesus Pregasse que Platão & Cícero não houvessem Pregado antes dele; o que então Jesus Pregou? Perdão dos Pecados.
Mas esse perdão, argumentou Blake, sendo uma supressão ou esquecimento, equivale à revogação da Lei mosaica e da idéia de pecado: Pois Virtudes Morais todas começam/ Na Acusação de Pecado. Declarou o pecado contingente a um código, e não ao Pecado Original. Em conseqüência dessa interpretação de Jesus Cristo como supressor da repressão, o moralismo é diabólico: Pois o que é Anticristo senão aqueles/ que contra Pecadores fecham o Céu/ Com grades de Ferro.
Se tais textos corrigem a idéia do Blake possesso, em surto, a recíproca, normalizá-lo, também é redutora. Loucura e criação não são incompatíveis: Hölderlin escreveu poemas importantes depois de enlouquecer; e Gérard de Nerval teve crises e surtos que resultaram não só nas experiências de efusão do sonho na vida real relatadas em Aurélia, mas em sonetos de As Quimeras. O romântico francês comentou, ironicamente: Recobrando o que os homens chamam de razão, não deveria eu lamentar tê-la perdido?
Interessa a noção de efusão ou transbordamento do sonho de Nerval. Evidentemente, uma coisa é a transcrição de um sonho, ou então o relato de um delírio, e outra sua efusão, que pode resultar em uma epopéia como Vala or The Four Zoas, com suas 120 páginas na edição Keynes, à qual Blake deu o seguinte subtítulo: um SONHO de Nove Noites, intitulando ainda cada uma das suas nove partes como Noite a primeira, Noite a segunda, etc – reproduzindo a valorização romântica do sonho, tão precursora do surrealismo.
Não só essa epopéia, como os demais poemas extensos de Blake requerem leitura e interpretação através do que se sabe sobre a “lógica” do sonho. Especialmente sobre um dos mecanismos da formação de símbolos, o deslocamento. No sonho, seria possível um enredo no qual Jesus Cristo comparece, em sua condição de salvador, para tornar-se Lúcifer, e este transformar-se em Jeová, que por sua vez é alguém que conhecemos, e logo é um autor que lemos, e ainda algum personagem inteiramente novo, enquanto também vão mudando a cena e as situações nas quais isso ocorre. Há instabilidade dos símbolos: o mesmo símbolo pode significar muitas coisas distintas, assim como vários símbolos significam a mesma coisa. A instabilidade não é “ilógica”: tanto é que Frye, em Fearful Symmetry, foi capaz de construir um diagrama, em forma de matriz, dando conta dessas mutações em Vala or The Four Zoas. Mas isso não permite dizer que esse poema não fosse delirante: delírios têm lógica; mas é uma lógica própria. Nessa e em outras das obras de Blake, há, não só polissemia, mas um universo que, desconhecendo os princípios lógicos da identidade e não-contradição, é multidimensional. Assim como no sonho, os símbolos flutuam em sua relação com o que significam. É seu infinito.
Nesse infinito, apenas a imaginação seria estável. Matriz da criação, equivale à existência do Adam Cadmon, o homem pleno. Conforme a fala dos Sete Anjos a Satã, em Milton:
A Imaginação não é um Estado: é a própria Existência Humana.
Afeição ou Amor tornam-se um Estado quando divididos da Imaginação.
A Memória é um Estado sempre, & a Razão é um Estado
Criado para ser Aniquilado e uma nova razão ser Criada.
Tudo o que pode ser Criado pode ser Aniquilado: Formas não podem:
O Carvalho é abatido pelo Machado, o Cordeiro cai pela Faca,
Mas suas Formas Eternas Existem Para-sempre. Amem. Aleluia!
Ou, em Jerusalem:
Não sei de nenhuma outra Cristandade e de nenhum outro Evangelho a não ser a liberdade de ambos, corpo & mente, para exercer as Divinas Artes da Imaginação, Imaginação, o Mundo real & eterno do qual este Universo Vegetal não passa de uma sombra fugidia, & no qual viveremos em nossos Corpos Eternos ou Imaginativos quando estes Corpos Mortais Vegetais não mais existirem. Os Apóstolos não conheciam nenhum outro Evangelho.
Há uma evidente resposta ao dualismo nessa passagem: a liberdade é de ambos, corpo & mente. Talvez se referisse às doutrinas platônicas ao falar em sombra fugidia neste Universo Vegetal, caído. Mas no centro não está mais o logos impessoal, porém a imaginação, entendida do mesmo modo como a celebravam Coleridge e Wordsworth, bem como Novalis e Baudelaire, que a chamou de rainha das faculdades: uma faculdade evidentemente humana, mas também divina; ou então, correspondente ao divino no humano, que em Blake é o plenamente humano. Para os profetas gnósticos e apocalípticos da Antiguidade tardia, o conhecimento, identificado à salvação, era intransitivo, absoluto; mas a liberdade era transitiva: liberdade para sair do mundo e deixar de existir como indivíduo. Para Blake, o conhecimento era intransitivo, total, e também o era a liberdade.
Tanto em sua poesia “simbólica” quanto em O Casamento do Céu e do Inferno, o Paraíso é aqui: pode estar no grão de areia; porém apenas homens e mulheres livres saberão enxergá-lo. E a salvação não é a saída do mundo, mas sua restauração: o novo mundo, anunciado no final de Vala or The Four Zoas:
Onde está o Espectro da Profecia? onde o ilusório Fantasma?
Partiram: & Urthona se ergue dos arruinados Muros
Em toda a sua força antiga para formar a dourada armadura da Ciência
Para a Guerra intelectual. A guerra das espadas agora partiu,
As escuras Religiões partiram & a doce Ciência reina.
Novo mundo; e um mundo arcaico, primordial, no qual, como disse em O Casamento do Céu e do Inferno, A altivez do pavão é a glória de Deus. / A lascívia do bode é a dádiva de Deus. / A fúria do leão é a sabedoria de Deus. / A nudez da mulher é a obra de Deus. Pois tudo o que vive é Sagrado. Ou melhor, tudo o que fosse espontâneo, livre do controle pela razão. Daí outra máxima famosa: O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria. Em seu universalismo místico e poético, Todos os homens são iguais, embora infinitamente vários, Assim (e com a mesma infinita variedade) todos são iguais no Gênio poético. No centro do universo de Blake, no lugar de Deus está o homem. Não o homem mundano, porém o Antropos, equivalente ao universo. Suas epopéias são relatos da perda e reconquista da plenitude. Não buscou o conhecimento abstrato, porém a vida. Não aspirava à salvação, porém à liberdade, entendendo-a como liberdade de criar, e não só como a libertação do mundo dos santos e místicos.  
 
NOTAS
1. Na tradução de Alberto Marsicano, assim como as demais citações deste poema.
2. Scholem, Gershom G, On the Kabbalah and its Symbolism, Schockem Books, New York, 1965, pg. 16.
3. Também de Blake, Complete Writings, assim como as citações seguintes.
 
Claudio Willer (Brasil, 1940) é um dos editores da Agulha. Publicação original na Agulha – Revista de Cultura # 67 (Brasil, janeiro de 2009).
 


 
 




terça-feira, 9 de outubro de 2012


TETO

Samuel Beckett

(Tradução de Ana Helena Souza)

Ilustração de Gerald Thomas
 

Ao voltar a si a primeira visão é de branco. Algum tempo depois de voltar a si a primeira visão é de branco opaco. Por algum tempo depois de voltar a si os olhos continuam fechados. Quando por fim se abrem são saudados por esse branco opaco. Olhos da consciência fechados de ter voltado a si. Quando por fim se abrem são saudados por esse branco opaco. Olhos da consciência obscura obrigados a se fechar e ter voltado parcialmente voltado a si. Quando por fim obrigados se abrem eles são saudados por esse branco opaco. Olhos da consciência obscura desobrigados de se fechar de ter parcialmente voltado a si. Quando por fim desobrigados se abrem eles são saudados por esse branco opaco. Mais além não se pode.

Adiante.

Nenhum conhecimento de onde saíra. Nem de como. Nem de quem. Nenhum aonde chegara. Parcialmente chegara. Nem de como. Nem de quem. Nenhum de nada.  Salvo obscuramente de ter voltado a si. Com temor de ser de novo. Parcialmente de novo. Em algum lugar de novo. De algum modo de novo. Alguém de novo. Temor obscuro nascido primeiro da consciência só. Consciência obscura só. Confirmado quando por fim os olhos desobrigados abertos. Para esse branco opaco. Mais além não se pode.

 Adiante.

Consciência obscura primeiro só. Da mente só. Só voltado a si. Parcialmente a si. Então pior voltado de corpo também. Também voltado a si. Parcialmente a si. Quando por fim os olhos desobrigados se abrem. Para esse branco opaco. Mais além não se –
 
Adiante

Algo de alguém voltado a si. Em algum lugar de si. De algum modo a si. Primeiro a mente só. Algo da mente só. Então pior voltado o corpo também. Algo do corpo também. Quando por fim os olhos desobrigados se abrem. Para esse branco opaco. Mais além –

Adiante.

Opaco com o sopro. Sopro infinito. Sopro infinito findado. Querida visão temida.
 

 

 

Publicado em: BECKETT, Samuel. Companhia e outros textos. São Paulo: Globo, 2012.
 
Quem quiser ler o ensaio de Gerald Thomas sobre a tradução do livro de Beckett citado acima, visite:
 
 
 

MARIDOS POR AFINIDADE: Nietzsche, Eric Clapton, Lou Salomé, Pattie Boyd, Paul Rée, George Harrison, Rilke...

 
Pattie Boyd

 

Husbands-in-law. Maridos por afinidade. Foi assim que George Harrison e Eric Clapton batizaram seu parentesco. Nome que teria sido de grande utilidade se inventado décadas antes. Porque Friedrich Nietzsche saberia então como se referir a Paul Rée. O outro marido de sua mulher.

Pena (ou sorte) que o célebre pensador não conheceu Pattie Boyd. A musa inspiradora do vocábulo. E de duas das mais famosas músicas da História.

A inglesinha Pattie era modelo da Vogue. Em A Hard Day's Night, primeiro filme dos Beatles, fez uma pontinha como fã stalker. Ironia. Porque em 1964, explosão da Beatlemania, ela nem dava bola para a banda. As inconformadas amigas não queriam acreditar: foi pedida em casamento e disse não. Para George Harrison! No dia em que ele a conheceu! E mais espantoso: o guitarrista ainda estava disponível quando Pattie cedeu e aceitou novo convite, para um encontro. Casaram-se em 1966. A confusão iria começar uns anos depois, com a chegada de outro músico.
 
Pattie e Harrison
 

Não foi fácil para Eric Clapton. Roubar a garota do amigo - e um amigo beatle - exigiu algumas manobras. Nem todas muito honrosas. Tipo namorar a irmã de Pattie, para ter proximidade com a amada. Compor Layla para convencê-la a ficar com ele. Até chutar de vez o pau da barraca, abordar o casal em uma festa e comunicar George que sim, estava apaixonado por uma mulher. Que, infelizmente, era a dele.

Eric e Pattie

Tamanha insistência não foi em vão. Anos mais tarde Pattie e Eric se casaram! Ele esperou. E alcançou.

Friedrich Nietzsche não precisou esperar. Lou von Salomé tomou a iniciativa no dia em que o conheceu. Isso, em 1882. É que Nietzsche mandou bem no xaveco: "De que estrela caímos, para nos encontrarmos aqui?" A reação de Lou veio na forma de uma proposta incomum.

 
Agora imagina só a cena. Você, sério e respeitado filósofo alemão. Batendo nos quarenta anos. Fechadão, bigodudo. Só sua mãe te acha bonito. Um perfeito nerd do século XIX. Um belo dia, a sorte lhe sorri. Uma menina russa, lindalinda, inteligente, quer saber. Você viveria com ela? Nietzsche não pensou duas vezes. Siiiiimm! Você dedicaria seu tempo a ela, que o considera um gênio, ensinando e discutindo seu hobby predileto? Filosofia!? Siiiimm! Você viajaria com ela pela Europa, para aperfeiçoar seus conhecimentos? Siiimm! Então, fechado. Só um detalhe: no casamento não vai rolar aquela atividade suja, bestial e profana chamada sexo. Tudo bem pra você? Sii......hã? Espera. Acho que ouvi mal. Dá para repetir? Pois não. Casamento casto, querido. Para quê comunhão de corpos, se a das mentes já é prodigiosa? Mas....Sem "mas". Ah, já ia me esquecendo: nas viagens, mamãe vai junto.
Nietzsche, apaixonado, disse sim a tudo.

E não só ele. Lou queria um casamento informal. A três. Só que, para o azar de Nietzsche, a terceira pessoa não seria outra russa maravilhosa, talvez com a cabeça um pouco mais aberta - e o corpo bem menos fechado. Paul Rée foi escolhido para segundo marido. Também já havia concordado com os termos de Lou. Então, nada mais bonito do que selar união tão produtiva com uma....foto! Essa. Repare em Paul Rée e sua expressão resignada de pois é, tem jeito?. Nietzsche fitando a paisagem, com cara de paisagem. Os dois na frente da carroça, como mulas. Lou sentada, segurando o chicotinho. Imagem autoexplicativa. Quando Rée recebeu a fotografia, comentou com Lou: "Nietzsche está soberbo; você e eu, monstruosos, podemos discutir sobre quem deveria ganhar o prêmio de feiúra". Que acinte. Pena que, por uma questão cronológica, tenha sido impossível para Lou replicar: "Pelo menos eu não sou a cara do Phil Collins!"

 
Naquele ano de 1882, Nietzsche foi todo amor. Feliz com as atenções de Lou, ansioso na ausência dela, inseguro e emotivo. Adotou como lema a máxima filosófica "se a vida lhe der um limão, faça uma limonada". Tentou ignorar Rée, expôs seus sentimentos a Lou: "Tenho pensado muito em você, e dividido com você, em pensamento, muito do que é elevado, interessante e alegre (...). Se você soubesse quão novo e estranho isso parece para um velho eremita como eu! Quantas vezes isso tem me feito rir de mim mesmo!". Nietzsche, como músico, era ótimo filósofo. Mas a falta de jeito não o acanhou. Quando Lou escreveu o poema "Hino à Vida", o pensador logo compôs um fundo musical para acompanhar os versos "se você não tem mais felicidade para dar/dê-me a sua dor". Funny. Eric Clapton não conseguiu ser assim tão conformado. Pegou o limão, fez uma caipirinha, encheu a cara, mergulhou no vício. "Seu silêncio quer dizer 'vai embora'?" O bilhetinho secreto escrito para a então casada Pattie Boyd transparecia a angústia do moço.

Só que, no futuro, a chatice e insistência de Clapton ainda iriam recompensá-lo. Enquanto isso, lá em 1882, Lou recompensava assim o marido, ao comentar com a cunhada: "Posso passar uma noite inteira em um quarto com Nietzsche, sem sentir a mais leve tentação de pecar". Elisabeth, que não suportava Lou, indignou-se. E tomou a mesma atitude que tomaria uma mulher sensata, moderna e evoluída do século LXIX. Foi correndo contar para o irmão. E nem assim adiantou. Ele ficou meio magoado, óbvio. Mas não desistiu de Lou.
 
Lógico, não muito tempo depois, quem desistiu foi ela. Causa: Nietzsche estava sendo desleal com Paul Rée. Falava mal do filósofo, tentando converter Lou à monogamia (de preferência, impura). A maledicência foi também a estratégia que Eric Clapton escolheu para diminuir George Harrison diante dos olhos de Pattie. Ou melhor, ouvidos. Na letra de Layla (música que na verdade se refere a Pattie), vem lá o cutucão: "I tried give you consolation/when your old man had let you down". George vivia mal humorado devido ao uso de cocaína. O roto falando do rasgado.


Mas Lou, ao contrário de Pattie, não deixou barato para o difamador. Afastou-se de Nietzsche. Que, aflito, mandou para ela um bilhete à moda claptoniana: "De tempos em tempos nós vamos nos ver de novo, não vamos? Não se esqueça de que, deste ano em diante eu me tornei subitamente pobre de amor e consequentemente muito necessitado de amor". Não comoveu. Foi quando, de fato, Nietzsche chorou. E resolveu assim se lamentar com, justo quem, Paul Rée: "Gostaria de apagar a memória deste doloroso ano por inteiro - não porque ele me ofende, mas por causa da Lou em mim".
Bom, e já que Nietzsche já não tinha mais felicidade para dar, deu a Lou a sua dor. Junto com rancor, ressentimento, orgulho ferido. Chamou a russa de "fera predadora que se faz passar por animal doméstico", "uma monstruosidade, um cérebro sem alma", "essa macaca seca, suja fedorenta, com seus seios falsos". Que coisa. Passou dos limites, concorda? O que seriam seios falsos, no século XIX A.S. (antes do silicone)? Limões? E como Nietzsche sabia que não eram originais de fábrica? Espiou trocas de roupa pelo buraco da fechadura? Viu sutiãs com enchimento pendurados no varal? Será que Lou revidou tamanha ofensa à sua anatomia? "Se liga! O despeitado aqui é você!" seria uma boa resposta.
 
Seja por excesso, ou por falta, não há dúvidas de que a paixão inspira. Não foi só Eric Clapton que escreveu Layla para sua musa Pattie. Um pouco antes, George Harrison já havia composto Something, a segunda canção mais regravada de todos os tempos, homenageando a mesma garota. Nietzsche tentou se curar investindo no trabalho: tomou o pé de Lou e seis meses depois já tinha redigido metade de Assim Falou Zaratustra, obra fundamental da filosofia. Além de meter o pau no falso moralismo cristão (por que será?), a dor-de-cotovelo nietzschiana ressoa no livro, que conta histórias fictícias sobre as andanças e pregações do profeta persa Zaratustra, fundador do zoroastrismo. Nietzsche defende a solidão e espalha pela obra alertas contra o ciúme, a necessidade da autossuperação como anestésico. E propaga o ideal de super homem a ser atingido, um ser capaz de abstrair o sofrimento que aflige o homem comum. Ou seja, ao invés de comprar e ler, Nietzsche foi menos prático: escreveu seu próprio livro de autoajuda. E colocou umas frases ferinas na boca do finadíssimo profeta, espetando Lou. Pois é, assim falou Zaratustra: "A Mulher não é ainda capaz de amizade. As mulheres ainda são gatas e aves, ou, na melhor das hipóteses, vacas". "Vai ver mulheres? Não esqueça o chicote!"

E Paul Rée? Se deu bem, depois que metade de seu casamento informal dissolveu-se pelo "divórcio"? Bom, em 1886 Lou se casou. Para valer. Com outro. Friedrich Carl Andreas, um linguista atarracado e barbudão. Parecido com Eric Clapton. Não?
Bom, matrimônio para valer no papel. Não nos lençóis. Só que Lou não teve tempo de tranquilizar Rée com a garantia de que o sistema continuava o mesmo da época de Nietzsche. O filósofo se despediu por bilhete: "Tenha piedade - não procure por mim".

Ao contrário de Lou, foi Pattie Boyd que botou pontos finais em suas duas uniões. George Harrison dançou não exclusivamente por causa de Eric Clapton, mas porque pulou a cerca. Com a mulher de Ronnie Wood, dos Rolling Stones (e os traídos deram o troco, juntos), e com a mulher do Ringo! Eric Clapton tomou um pé de Pattie depois que engravidou uma italiana.

Pattie e Ron Wood
 
Após a partida de Paul Rée, Lou sentiu-se incompleta. Casada-solteira não era seu ideal de estado civil. Ela queria ser casada-casada. Nova oportunidade surgiu quando Lou, aos trinta e seis anos, conheceu o poeta Rainer Maria Rilke, de vinte e dois. Rilke era fã de Nietzsche e logo caiu de amores pela ex do seu ídolo. Problema solucionado: Rilke tomaria o posto vago por Rée. O moço se mudou para a vizinhança de Lou e Andreas, e os três iniciaram o novo relacionamento. Lou fez uma pequena mudança nas regras: relação espiritual e platônica, só com um dos maridos. O fato de Rilke ser loiro, olhos azuis faiscando no belo rosto jovem, certamente não pesou quando Lou decidiu que a ele caberiam os assuntos mundanos. Foi mera coincidência.
 
Rilke
 

Lou morreu aos setenta e cinco anos. Antes disso, ainda teve tempo de fazer com que Freud se encantasse por ela. Não era fraca, não. Nem um câncer de mama a abateu. Operada, ela declarou que Nietzsche não estivera totalmente errado. A partir de então, seu seio seria mesmo falso.
Pattie continua viva. Fotógrafa, briga com uma editora pelos direitos autorais da sua autobiografia, onde não faltam histórias de amores bem e mal resolvidos. Afinal, são justamente esses deliciosos, divertidos, tocantes e trágicos episódios que empurram a humanidade, não? Que igualam e aproximam homens e mulheres de variadas épocas, culturas, idades, profissões. Lou, Clapton, Nietzsche, George, Rée, Pattie, Rilke. Todos perceberam que o amor nunca é uma aposta segura. Exige concessões. Acomodações e adaptações. E, quando acontece, pode ter um formato um tanto diferente do imaginado e desejado. À maneira de cada um, todos aprenderam que amar, ou ser amado, é um ato de coragem. Arriscar o coração é farejar uma chance de felicidade. E, sem pensar demais, pegar - ou largar.

Bom, quase todos.
Nietzsche foi exceção.

O único que não pegou.

E foi largado.

Nietzsche
 

 
(P.S. O imbroglio de Lou e seus homens eu conheci graças a um capítulo do "Livro das Musas", da Francine Prose. Pattie e seus guitarristas também são um capítulo, parte do bacaníssimo "The Girl in the Song", de Michael Heatley e Frank Hopkinson. Os dois livros valem muito a pena).
Texto retirado do blog: http://galaxyof.blogspot.com.br/2011_08_01_archive.html

sexta-feira, 5 de outubro de 2012


Gargantua de Rabelais e o Renascimento

 

O príncipe Gargantua, o bebê gigantesco de Rabelais, nascido ao ar livre, em meio a uma festa, acordando para a vida abrasado pela sede e pedindo alto o que beber, deve ter sido um símbolo intencional da infância do Renascimento, que veio ao mundo desenfaixado e sedento, para beber e tornar-se forte bastante para a derrubada de falsas barreiras e a reinstalação dos sentidos, que a religião ensinar a desprezar. A beleza se manifestou novamente ao homem – a beleza e a alegria que ele aprender a considerar como inimigas mortais do Cristianismo. E, inspirado em mármores e manuscritos recém encontrados, numa espécie de intoxicação, abraçou de novo o Paganismo e a Natureza, e reconheceu no corpo do homem o intérprete, não o adversário de sua alma.
 
Essa emancipação, esse poder de expressão, manifestou-se em todas as direções. A mente humana estava apaixonada; não havia uma região árida no reino do conhecimento e da arte. A arte oi, talvez, o meio mais vigoroso e permanente de auto-revelação escolhido pelo Renascimento. Na pintura, na escultura, na ourivesaria e nas gemas cinzeladas, aquele maravilhoso período floresceu e frutificou, tão fértil quanto se fosse uma segunda natureza com suas próprias leis e estações.”

In: SICHEL, Edith. O Renascimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
 

AMOR AOS LIVROS- MAQUIAVEL

Gravura de Sergio Niculitcheff

“Quando cai a noite, vou para casa e entro na minha biblioteca. No umbral tiro minha roupa campesina, imunda de lama e de lodo, e me paramento em vestes reais e cortesãs; assim dignamente ataviado, faço minha entrada nas velhas cortes dos homens de outrora, onde eles me recebem com amor, e onde me nutro daquele alimento que é o que me é próprio e para o qual nasci. Não me envergonho de conversar com eles e perguntar-lhes as razões de seus atos. Eles, movidos por sua humanidade, respondem; durante quatro horas não me aborreço e esqueço todos os cuidados; a pobreza não me pode amedrontar, nem a morte me aterroriza – estou transportado para a companhia deles.”