quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
BRASSAÏ - fotógrafo underground:
BRASSAÏ - fotógrafo underground:
Brassaï, o fotógrafo da Paris underground, era fascinado pelas pessoas notívagas que pertencem a um mundo de prazer, amor, vício, crime, drogas. Um mundo secreto, suspeito, fechado aos não iniciados. Brassaï, além de fotografar bordéis e casas de ópio, que ele considerava representarem a face mais viva e autêntica da cidade, também fotografou um grupo de artistas com quem compartilhava alguns valores.
Seus escritores favoritos, Stendhal, Dostoieviski e Nietzsche, dizia Brassaï, eram apaixonados pelos proscritos que viviam longe das convenções. Eles admiravam seu orgulho, sua força, sua coragem, seu desdém pela morte. Dostoievski venerava criminosos de verdade, acrescentava Brassaï. Ladrões, assassinos, condenados - seus próprios companheiros de prisão. Esses criminosos, rejeitados pela sociedade, se tornaram seus mentores, sua doutrina de vida tornaram-se seu ideal. Dostoieviski conscientemente adotou o código dos presos: viver a vida segundo as próprias paixões, criar as próprias leis!
Também Sartre, amigo de Brassaï, sentia atração similar por lugares sórdidos e jovens duvidosos, e sua rejeição dos valores de classe média, seu fascínio pelo ladrão Jean Genet e sua arte acarretavam comparações com o código de condenados de Dostoievski.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Heidegger visita a peça “Recordações do tempo em que tinha boca”
Heidegger
visita a peça “Recordações do tempo em que tinha boca”, de Aguinaldo de Souza
Por Jardel Dias Cavalcanti
A
morte enquanto indagação filosófica foi o tema da instigante peça “Recordações
do tempo em que tinha boca”, sob direção de Aguinaldo de Souza, apresentada no
Filo (Festival Internacional de Londrina).
Livremente
inspirada no cinema de Charles Chaplin e no livro “Intermitências da morte”, de
José Saramago, a peça faz do corpo o principal instrumento de comunicação. Os
recursos cênicos são mínimos justamente por isso, para que a mímica nos
transporte para uma situação absurda, a da relação do homem com sua mais
terrível e única certeza: a morte.
Não
podemos deixar de pensar na filosofia de Heidegger durante a apresentação da
peça. Para o filósofo alemão, o homem é um ser jogado no mundo, abandonado à
sua precariedade, perdido e mergulhado na angústia de sua finitude. Seu próprio
ser é indefinido, sendo sua convivência com os outros e com as coisas incerta e
precária. Na busca por apoio, encontra apenas a terrível certeza de que a
morte é inalienável. Imprevisível, mas certa, a morte é assustadora. Quando
chega, é implacável e inadiável na destruição do Ser. Portanto, para Heidegger,
o homem é um ser-para-a-morte.
A
peça de Agnaldo de Souza trafega nesta certeza. Os atores vivem ou em situação
de repetição absurda de seus gestos, como um Godot a espera de nada, ou em
momentos de desequilíbrio e impossibilidade de afirmar qualquer razão para a
vida. A cena mais dramática nesse sentido é a da atriz passando de um sapato de
salto alto a outro, se calçando num desequilíbrio permanente.
Outro
momento forte da peça é quando a lista de mortos anunciada é constituída de
nomes de pessoas da própria plateia. Esta
estratégia aproxima a angústia da morte de todos, destruindo o distanciamento
que a condição de espectador possibilita. O riso amarelo da plateia revela o
resultado positivo da estratégia.
Voltando
ao corpo dos atores: eles falam mais do que tudo. Lucas, Paula e Tainara chaplinianamente tornam
nossas ações cotidianas desprovidas de heroísmo, calcadas em repetições sem
sentido, desprovidas do sublime. Comer, passar o dia nas redes sociais, se
enfeitar. Estratégias para a fuga da certeza inabalável da morte? De nada
adianta, é o que a sôfrega e caricata representação de nossos gestos pelos
atores nos comunica a cada segundo da peça.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Paulo Sérgio Talarico
porteiras e fogões
Por RONALD POLITO
Por RONALD POLITO
1.
Há mais de uma década, Paulo
Sérgio Talarico tem frequentado a tópica por excelência recorrente das
artes-plásticas em Minas Gerais: a representação de suas montanhas, fazendas,
campos e cidades do interior, reais ou não, em paisagens rurais ou cenas urbanas
que remetem a lugares reconhecíveis ou puramente imaginados. Se essas
representações apontam uma leitura particular da tópica, o que aqui não será
abordado, elas de qualquer modo se balizam pelos elementos consagrados na área.
Não
é o caso de duas séries que têm se firmado no campo de suas pinturas. Refiro-me
aos quadros de pequenas dimensões que nos apresentam, de um lado, porteiras em
estradas rurais e, de outro, fogões de lenha. Uma opção por isolar uma parte
capaz de representar o todo. A força de uma tentativa desse tipo será tanto
maior quanto mais intensa for sua capacidade de magnetizar, atrair para si os
diversos atributos do todo a que quer se referir. É esse, me parece, o caso
dessas duas figurações: os fogões e as porteiras.
Talarico
está pisando em terreno novo. Desconheço, nas representações e tópicas sobre
Minas Gerais, obras de artes-plásticas que nos apresentem esses elementos
isolados de seus contextos. Trata-se, assim, de um movimento mais imprevisível,
de invenção de novos recortes capazes de apresentar do outro modo esse
imaginário rural e da vida no interior agrário.
Dizer
que fogões e porteiras remetem a Minas Gerais é, no fundo, um reducionismo,
aqui só compreensível por sabermos de dados biográficos do autor e pela
semelhança que as imagens guardam com objetos do mundo real e presentes nessa
parte do território brasileiro. Mas é possível, naturalmente, não se ater a
essa moldura e tomar essas figurações como representações de uma realidade mais
ampla, a do país. Ou mesmo de todos os países agrícolas e periféricos no
cortejo mundial, quando essas imagens alcançam latitudes antes impensadas.
2.
As porteiras ou cancelas são como
que uma conclusão lógica, uma redução ao mínimo, do que já vinha se
manifestando nas paisagens montanhosas do autor. Em diversas paisagens, bem
como nas landscapes (que são um
subconjunto dessa tópica), que nos apresentam especificamente recortes rurais e
semirrurais, tornou-se notória a presença de grandes porteiras em primeiro
plano que, geralmente, servem como moldura a partir da qual o espectador
descortina, por trás delas, a circunstância geralmente bucólica que resguardam.
Como moldura dentro da moldura, elas funcionam como lente de aumento, como
seleção e recorte privilegiador do que é mais importante a ser reconhecido. Diga-se,
ainda, que não são porteiras, por vezes de currais, eventualmente presentes em
representações de casas-grandes mineiras que incorporam seu entorno, pátios e
pomares. São porteiras de estradas de chão, demarcando limites de propriedades,
povoados, definindo território. E, aos poucos, elas foram se autonomizando até
que surgiram como o elemento a ser destacado.
Cercar,
dividir, resguardar, preservar: silenciosas e fechadas, essas porteiras servem
para barrar o observador inoportuno, o invasor do que deve se manter na privacidade.
Apenas uma grande casa à direita indica a ocupação humana, nenhum bicho,
nenhuma flor. Casa recolhida e preservada pelas montanhas e pelo céu que a
cercam. Montanhas e céu em profunda harmonia. Numa pintura que é também desenho
(principalmente dos repertórios dos quadrinhos) nos delineados e simula se aquarelar
nas vegetações, tipos de técnica e linguagem que o autor há décadas vem
transferindo para a tela. Essa opção sobrecarrega a cena com uma dimensão
infantil, lúdica, acentuando o que uma imagem pode conter de ilustração.
Este
é um tipo diferente de locus amoenus:
desprovido de fontes, de ninfas, do repertório usual, põe em seu lugar apenas
porteiras, montanhas, casinhas, o vocabulário reduzido aos naïf. E as dimensões pequenas dos trabalhos igualmente são
adequadas ao tema.
elementos mais
primários, capturado por um lirismo que lança mão dos rabiscos da infância. As
cores quentes, vivas, a superfície homogeneamente ensolarada, na maioria das imagens,
confirmam essa organização em torno do básico, por pouco
Sem título. Acrílica sobre louça, 20
cm/d. 2010. Coleção Henrique Teixeira.
Por
vezes, a orientação de cores é outra. Como no caso desse quadro em tons
terrosos, quase monocromático, como se citasse o sépia de certas fotografias
envelhecidas ou transmutasse em desbotamento o que o tempo fez com a pequena
vila apresentada num fim de tarde.
Sem título. Acrílica sobre cartão
reciclado, 30 x 20 cm. [2002]. Coleção Valéria Jucá.
A
vila repousa em absoluto silêncio, nenhum movimento. Nada está sendo ou será
construído aí, ela está pronta e acabada. E a porteira é sólida, três pranchas
largas em mourões pesados. O "mesmo" lugar recebeu nova apresentação,
agora se colorindo um pouco mais, mas o
tom de desolação, de vida parada, permanece intacto.
Sem título. Acrílica sobre cartão
reciclado, 40 x 30 cm. [2002].
Como
síntese da tópica, redução máxima, a tela seguinte é uma das melhores
realizações do conjunto, cuja meta parece ser o estado de contemplação onírica.
Nela apenas a porteira e a cerca indicam claramente a presença e a posse humana,
afora os pastos. E o pequeno monte à direita oculta, antes que a curva da
estrada suma, tudo o que nossa imaginação pode supor por trás dele, incluindo o
vazio. O local ameno guarda suas fraturas, seu desgaste. Mas a degradação se
encontra paralisada, o que permite a figuração amistosa, uma promessa de paz,
que aparentemente não nos pertence, ainda que possamos experimentá-la do lado
de cá porteira.
Sem título. Acrílica sobre tela, 40 x
20 cm. [2002]. Coleção Adalberto Queiroz.
Esta
última tela, a de melhor realização das que conheço com as porteiras, com
exceção da tela com tons terrosos, abandona os traços de algum modo mais
juvenis das que reproduzi. E repete praticamente todos os elementos da
anterior, mas com outra abordagem. As cores aqui se aprofundam, algo outonal ou
mesmo invernal está presente. E se nas anteriores os delineados as aproximam de
certos padrões de ilustração, nessa o resultado é diverso, precisamente porque
eles deixam de ter essa propriedade ilustrativa ao adquirir mais substância.
São contornos grossos, demarcando grandes volumes de terra ou vegetação apenas
sugeridos, talvez caulim no barranco branco, que se espalha pelo chão. Eles
intensificam com certo expressionismo as escolhas cromáticas rebaixadas desses
volumes da tela, algo melancólicas ou frias. E os movimentos sinuosos e velozes
de barrancos, matas e porteira conferem alguma intempestividade à atmosfera.
Sem título. Acrílica sobre cartão
reciclado, 45 x 35 cm. 2006. Coleção Helô Barbosa.
3.
Os quadros com os fogões de lenha
e suas cozinhas são mais radicais. As porteiras foram um recorte inteligente,
mas de um repertório dado. No caso dos fogões de lenha a operação é mais
conceitual, alegórica, imprevista. É importante notar o quanto é pequena nossa
iconografia dos pobres e envergonhados interiores de casas-grandes e outras
moradas rurais, o que talvez "justifique" sua pouca frequentação. Mais
ainda se contrastada com a grande quantidade de representações de fazendas do
país, com seus pomares, cercas e criações, em telas, aquarelas, desenhos e
gravuras.
Como
objeto imaginado capaz de atrair outros, o fogão de lenha aqui ocupa o centro para
se apresentar a moradia, a habitação, de forma despojada, às claras. Outros
cômodos da casa seriam talvez redutores: a sala de visitas com sua sociabilidade
interessada, os quartos e sua intimidade supostamente indevassável... A cozinha
é onde todos se encontram, onde as hierarquias estão mais afrouxadas, e é
incontornável.
Casas,
cozinhas e fogões são, no entanto, mais determináveis. A escolha é pela cozinha
espaçosa, com quase sempre o mesmo grande fogão de fazenda, a janela dando para
o pasto extenso, o dia ensolarado e homogêneo lá fora, os interiores em amarelo
algo melancólico, com o observador situado no cenário. Esses são os elementos
usuais.
Sem título. Acrílica sobre cartão
reciclado, 40 x 30 cm. [2002].
Sem título. Acrílica sobre tela, 70 x
50 cm. 2013. Coleção Helô Barbosa.
Essa
mesma organização geral pode ser notada em outros trabalhos. O seguinte é
particularmente perspicaz com a utilização da almofada de uma porta ou janela, da
mesma natureza das que estão pintadas na própria imagem, como suporte, tornando
a "tela" tridimensional. Note-se que esse material vendo sendo usado
há muito tempo por Talarico, modo de forçar os limites entre dentro e fora e
entre duas e três dimensões. O efeito ótico é de inversão, a cozinha passa a
estar "encaixada" num cenário que apresenta o teto e as três paredes
em torno. Mas também de duplicação, porque a perspectiva pintura é diversa da e
concorre com a perspectiva sugerida pelo facetamento, desestabilizando a
posição do observador em seu interior. Outra vez, a presença de quadros nas
paredes, que aqui replicam confirmativamente o "quadro" que a janela
emoldura, e que informam sobre um padrão de uso, um ambiente cultural e um ideal
de natureza.
Sem título. Acrílica sobre almofada
de porta, 95 x 25 cm. 2010.
Na
tela seguinte, fazem-se mais presentes elementos incomuns. os candelabros com
as velas ao lado do fogão, o espelho refletindo a vela e a cadeira com braços
atrás do fogão, como se pertencessem a outro ambiente doméstico. Também a taça
causa certa surpresa, pois não é usual como são o queijo curado na beirada do
fogão, o bule e a caneca ou leiteira. Uma cozinha, então, que reúne elementos
de outros cômodos, sintetizando toda a casa que possui traços de requinte
aristocrático e frugalidade, e de novo estamos posicionados dentro dela,
olhando o fogão de perto e de cima, e parece que estamos sozinhos. Em todos os
trabalhos, a mesma ausência, nenhum ser humano, exceto o observador, com poucos
elementos que suponham alguém ter estado ali presente há pouco tempo ou que
venha novamente estar, a taça apenas. As mesas, quando há, estão bem arrumadas,
sem vestígios de uso, os fogões e espaços trazem poucos alimentos e se
encontram arrumados, em repouso e alheios a nossa curiosidade.
Sem título. Acrílica sobre tela, 70 x
50 cm. 2012. Coleção Leila Bara.
O
fogão de lenha parece ser, então, uma espécie de natureza-morta, por vezes até
ladeada por arranjos florais, outras naturezas-mortas na cena, e também entra
em atividade, tornando a presença humana mais próxima.
Sem título. Acrílica sobre tela, 70 x
50 cm. 2013. Coleção Cláudia Soares.
A
natureza-morta em primeiro plano, citando Van Gogh, bem como as outras em
terceiro plano, mundanas, da roça, desencantadas de seus atributos usuais de
requinte, mas revelando uma cozinha festiva ou mesmo alegre, não conseguem nos
desviar do principal, as panelas no fogão tosco, ensebado, desses cimentados e
pintados com muito pó xadrez. Mas com forno. E sempre a cadeira e a mesa, numa
cozinha espaçosa onde cabe muita gente.
Sem título. Acrílica sobre tela, 70 x
50 cm. 2012. Coleção Faustino Teixeira.
Um
território amigável, com a lenha acesa, o coador de pano a postos, o céu da
paisagem incorporado ao espaço interior, nas janelas, no jarro da mesa e nela
própria, os quadros na parede aumentando a intimidade da circunstância. E o cão
se aquecendo torna tudo ainda mais hospitaleiro, convidativo.
4.
Duas séries que dialogam com as
tradições das paisagens e das representações rurais, tentando sintetizá-las a
partir de elementos aglutinadores, capazes de pôr em ação um conjunto de
referências. A reuni-las, o tom intimista, a posição contemplativa do
observador, o silêncio, a falta de movimento, a luz diurna clara e homogênea, a
linha negra do desenho definindo as regiões das cores, a presença humana por
suas obras. Nas porteiras, o sistema de posse retificado, o paraíso meio
decaído, privado e isolado. Talvez por isso mais convidativo à divagação do
olhar. Nos fogões a lenha, a sociabilidade manifesta, a cozinha como centro da
casa, lugar para o encontro e a conversa, a feitura dos alimentos e sua
partilha, do íntimo e do coletivo reunidos. Do conjunto, ao qual se agregam
outras séries do autor, sobressaem o desejo de apresentar os ambientes naturais
e rurais como possibilidades do espairecimento, de devaneio bucólico, de
convívio afável. E por meio de figuras reduzidas ao mínimo (porteira, casa,
montanha; fogão, janela, mesa), exacerbado por sua estilização de desenho.
Curiosa operação de redefinir e reposicionar os dados que pertencem a um
imaginário coletivo, a vida nas montanhas em pequenas comunidades e em estado de
isolamento, encontrando alguns elementos capazes de remeter a essa combinação particular
de relações históricas, sociais, culturais e afetos da memória. Eles se
alimentam de nossas vivências da infância, reais ou imaginárias, e propõem recortes
imaginativos das circunstâncias da vida interiorana, que correspondem às suas
melhores condições diante de um entorno ameaçador.
Ronald Polito
março de 2014
quarta-feira, 19 de março de 2014
As galinhas entraram em nossas
vidas muito antes que pudéssemos imaginar. Bichos de nossa intimidade, desde
sempre na Arca, dispensam apresentações. De minha parte, creio que elas
passaram a pertencer definitivamente a meu imaginário quando eu tinha uns quinze
anos de idade e era leitor da revista Mad.
Num daqueles números antológicos, um cartum com galinhas, que suponho de Don
Martin, tornou-se para mim uma lembrança permanente ao longo da vida. Nele
podíamos ver duas enormes galinhas nas salas de um museu observando telas
clássicas, tipo Rubens ou Rafael, com um pé semierguido, a cabeça levemente
inclinada, contemplando, e bem interrogativas. Uma cena que valia por tomos e
tomos de sociologia da arte. Se não era de Don Martin, nenhum problema, mas se citei
o cartunista brilhante foi para indicar uma das influências mais importantes e
permanentes que Paulo Sérgio Talarico recebeu em sua formação, não apenas pelo
traço, como também pelo humor.
E
a galinha é um desses assuntos que parecem estar necessariamente ligados ao
cômico, ao satírico, ao ridículo, mesmo que isso não esgote suas
representações. Digo isso pensando na iconografia e em como a galinha surgiu e
se destacou. Geralmente ocupou uma posição coadjuvante em cenas rurais e
semirrurais da pintura da época moderna e novecentista. Entre outros bichos,
figurava compondo o cenário do quintal ou terreiro. Ou poderia estar pendurada ou
sobre uma mesa, morta com outras aves e caças, em outro gênero de pintura (por
exemplo, em telas de Gustave Caillebotte). Mas, aos poucos, elas passam a ser apresentadas
isoladamente, chocando ou ciscando, em pequenos bandos, ao lado de galos, sozinhas
ou com a ninhada, em miniaturas ou telas a óleo de pequenas dimensões, próprias
ao tema. Pode-se imaginar a surpresa que essas pinturas provocaram na época,
talvez semelhante à estupefação congênita das próprias galinhas, pois foi
necessário um longo percurso de deslocamento de valor do representável para que
se chegasse ao consumo das imagens de cada um dos animais. De qualquer modo, o
que temos nessas pinturas é uma tentativa de conferir certa gravidade às
galinhas, bichos domesticados captados em pouco ou nenhum movimento, com um
enquadramento e tratamento de cor e luz acadêmicos.
Uma
galinha, contudo, não tem nuances. É muito fácil saber o que é e o que não é uma
galinha. Não há como sustentar durante muito tempo uma apropriação épica ou
trágica de uma galinha. Exceto nessas espécies de memento mori que são as telas lúgubres com bichos mortos em
cozinhas, fadadas ao sucesso contemporâneo, em que a escatologia, o bizarro e o
feio estão entronizados. Ou queimando-as vivas em praça pública, como fez Cildo
Meireles em 1970.
Mas,
logo em seguida, nós podemos vê-las situadas em seu território por excelência,
que é o do cômico e suas derivações. Evidentemente, este é um investimento de
sentido nosso. As próprias galinhas não são assim ou assado (sem trocadilho).
São nossas construções do que seja o risível, o ridículo, o absurdo, o irônico,
o patético etc. que escolhem no mundo sensível aqueles elementos capazes de apresentá-las.
E as galinhas encontraram seu próprio elemento quando se viram representadas em
um sem-número de trabalhos de cartuns, das histórias em quadrinhos, das
charges, dos desenhos animados. Este é um universo, se comparado à galáxia da
pintura. O que de melhor as galinhas podem nos dar talvez seja nos fazer rir.
Essa
é a opção de Talarico, que há muito tempo se apoderou das galinhas como um de
seus temas mais recorrentes. Ele também fez diversos galos, mas aqui só vou
tratar delas. Sozinhas ou em bandos, com suas crias, em pequenos suportes
diversos como telas, almofadas de janelas e portas de demolição, pratos, cubos,
em desenhos em papel, cartão, cerâmica, em pinturas, o artista flagra o bicho
de diversas perspectivas, geralmente cômicas, mas não apenas, pois há um
lirismo delicado em suas obras.
Acrílica sobre cartão reciclado, 45 x
30 cm. 2012.
Ela
acaba de fazer seu primeiro movimento para seguir em frente, esticando o
pescoço, e para por um segundo, o que sempre parece uma falha de funcionamento,
uma isquemia cerebral intermitente. Nesse exato instante, o artista a paralisa
em sua aparente hesitação. A cabeça diminuta em relação ao corpo agigantado parece
ampliar sua ignorância sobre para onde vai, ressaltada no olho esbugalhado
mirando um ponto muito acima do observador. Uma galinha-botero. Poderosa, no
entanto, meio como uma desconjuntada ou obsoleta máquina de guerra, ela empurra
com as costas o céu e pisa firme o chão pouco animador que tenta
desestabilizá-la, apropriando-se de todo o espaço: entre o céu e a terra há uma
galinha.
Em
seus movimentos quase mecânicos, reduzidos, na pobreza de sua expressão
corporal escorregadia (talvez por isso exitosamente incorporável a
performances), com seu pé meio que esquecido erguido no ar, seu par de olhos
vitrificados e distantes, a crista como que autômata e sempre nervosa, a
galinha é a própria materialização das incontáveis dúvidas, geralmente
estúpidas, em que podemos perder grande parte de nossa existência. Ela titubeia
entre hipóteses, destinos, que supõe existirem. Ela nunca sabe para onde vai,
nunca sabe se vai, nunca sabe-se.
Lápis sobre papel. [1998]. Coleção do
autor.
Com
sua operosidade restrita, que é sempre a mesma, o afazer cotidiano de ciscar,
ciscar, ciscar horas a fio, a galinhada nos humaniza, presos ao pasto cotidiano,
quando deixamos de prestar atenção até em nós mesmos.
Acrílica sobre cartão, 100 x 80 cm.
2011. Coleção Cristina Couto Guerra.
E
com a falta de cerimônia ou ingenuidade típica de quem nunca se imagina notado,
elas se esquecem da vida apontando com garbo seus rabos para o alto, a galinha
branca com pernas deselegantemente bem abertas, no centro do quadro, para você
que a está vendo. Esse centro onde se encontra a maior parte do alimento e que
está coberto por seu corpo, cujo centro é seu rabo... O trabalho, portanto, não
é sutil, mas pode passar despercebido. Como o pescoço pelado roxo da galinha com
crista bem vermelha em primeiro plano. E tão senhoras, grandes galinhas
poedeiras criadas soltas.
Acrílica sobre cartão reciclado, 35 x
25 cm. 2000. Coleção Helô Barbosa.
Esta
galinha d’angola, tão
satisfeita de si, para e posa lateralmente para ser flagrada, certa de sua
beleza exótica, a distinção de suas penas nesse lado do Atlântico. Seu olho e
bico produzem um sorriso ambíguo como o de Mona Lisa?
Acrílica e tinta de parede sobre cartão
reciclado, 40 x 30 cm. 2000. Coleção Helô Barbosa.
Essas
três nos conduzem a um lugar mais conhecido. Estamos com certeza em um terreno
humano, já que estamos falando de galinhas. Que são muito falantes. A imagem é
do tipo que nos leva a um sorriso à socapa. A vermelha, tão convencida de si,
alteada, apenas acabou seu comentário com ares de ingenuidade, mas falsa porque
é má atriz, sendo claramente questionada pela galinha do centro, que, por uma
leve confusão ótica provocada por seu rabo, parece por um instante estar com a
mão na cintura. A observação dela parece contundente, que dispensaria qualquer
comentário a mais. Mas há: o golpe de misericórdia é dado pela galinha do
fundo, que passa ao largo e sibilinamente acrescenta outra observação crítica.
Galinhas
têm mil e uma utilidades. Por exemplo: esta definitivamente humanizada como gorda
galinha-sarney dos ovos de ouro, com o grande ovo do Congresso partido ao meio,
oferecido. A cabeça ovo parece insistir no poder da reprodutibilidade dos ovos,
calma e diligentemente chocados com bastante brilho, que recobre inclusive suas
penas e rabo, mesmo sob um céu não muito amistoso. E, à diferença da fábula,
essa galinha não tem dono.
Desenho e Photoshop. Charge no Jornal do Sol (Porto Seguro, 2004).
Esta chester um pouquinho acima
do peso, poedeira, apresenta ao público curiosíssimo seu ovo-troféu, motivo de
todo o orgulho de sua pose e fisionomia
Sem título. Desenho. [2000]. Coleção
do autor.
As
galinhas também têm sido exploradas em outros suportes, como dito. Um deles é a
cerâmica, no caso, o haku. No gênero da pintura de pratos, Talarico optou por utilizar
esse prato “disforme”, “oriental”, de pequenas dimensões e espessura, no qual
grava seus desenhos que depois são queimados. A forma inusual combina com a
temática um tanto inesperada: uma galinha passeando com suas crias, vigilante.
Sem título. Haku, 18 x 12 cm. 2013.
Coleção Ricardo Salomão.
Outra
experiência com desenho sobre cerâmica são esses cones também em raku. No menor, destacamos essa franga
de peito estufado, crista ao alto, que parece rir. No maior, o pintinho ciscando/treinando,
protegido entre duas galinhas.
Sem título. Haku, 10,5 cm x 4 cm/d; 14,5 cm x 4,5
cm/d. 2013. Coleção particular.
Mas
o trabalho mais surpreendente com o tema das galinhas é um pequeno cubo de
madeira com suas facetas pintadas, recentemente realizado. Ele, de certo modo,
pertence a uma série de cubos e pequenos mourões de madeira que há anos são
transformados em prédios ou casas por Talarico, explorando a
tridimensionalidade do suporte e em diálogo com obras de cerâmica mais típicas
desse tipo de representação. Mas nos casos das peças de madeira a similitude é
alta entre a forma geométrica e as moradias. Não é o que ocorre com o cubo que
passo a observar, pois ele se organiza em outros termos.
Sem título. Acrílica sobre madeira, 7
x 7 x7 cm. 2014. Coleção particular.
A
imagem quase reproduz o tamanho original, um cubo com cerca de sete centímetros
em cada aresta. Nele Talarico pintou com acrílica a mesma galinha vista por
quatro lados e de cima. O cubo é um pedaço de madeira usado, velho, difícil
imaginar sua anterior serventia. Mas as marcas de prego não deixam muita dúvida
de que teve algum emprego.
Estamos
diante de uma pintura, mas que é também “escultura”. E que não tem frente e
verso previsíveis, já que a imagem da galinha de frente não está na posição
diametralmente oposta à imagem dela de costas. Ou seja, a observação do objeto
pode ser iniciada em qualquer faceta, pois não há um início e um fim previstos.
Sem saída ou entrada, leio-a em certa ordem, “dramatizando-a”.
Pega
de surpresa, ela levanta as asas como se respondesse ao comando de “mãos ao
alto”, ao mesmo tempo que mantém as pernas abertas e paralelas enquanto é
alvejada por dois poderosos disparos, um que atinge levemente seu ombro
esquerdo, outro em baixo da asa esquerda, nenhum dos dois letal. Mais que
assustada, sua cara denota perplexidade diante do que está acontecendo.
Ao
se virar tentando escapar pé ante pé, tem de enfrentar uma situação sísmica que
ameaça fraturá-la. Mas não há mesmo saída. Tentando escapar de foram
atrapalhada, vira-se integralmente, dá uma volta de 180 graus, o que é seu primeiro
erro fatal.
É
atingida por quatro balaços de espingarda, do tamanho de seu olho, e um passa
por cima. Dois tiros são mortais, os outros do rabo ainda lhe permitiriam
sobreviver. Numa última tentativa de escape ela se volta de costas, o que é seu
segundo e último grande erro e sua pior ideia...
O
disparo derradeiro, as pernas agora um pouco abertas, ela vai arriar, mas se
vira ainda para ver a queda e seu alvejador. E diferentemente dos buracos reais
das outras facetas do cubo, este buraco negro como que com respingos de sangue
em volta foi pintado. O autor assina a morte e põe um ponto final.
A
coda é a parte de cima do cubo.
Quando
nosso olhar fura a tela d’água, mergulha no cubo e descobrimos sua quarta
dimensão. A madeira serrada de forma tosca é um mar de ondas provocadas pelo
deslocamento do corpo da galinha inesperadamente aquática e submersa, muito
focada, como sempre indo sem que saibamos para onde, como uma lontra, ou um
caramujo. Existe outra vida, tudo está salvo.
Há
um erotismo provocativo, debochado, nesses rabos levantados, nessas partes
pudendas tão à mostra. Que até brinca com a pornografia e a escatologia. E não
poderia ser de outro modo, afinal estamos falando de galinhas. E há a
contraface disso tudo, o cuidado, o carinho com a cria, e o cotidiano atarefado
com encher a barriga. Tudo muito básico, bem próximo da experiência humana
diária.
Ronald Polito
março de 2014
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