sábado, 8 de setembro de 2012


MARX E A QUESTÃO JUDAICA

 

"Sobre a Questão Judaica" (em alemão: "Zur Judenfrage") é um ensaio de Karl Marx escrito no outono de 1843. É uma das primeiras tentativas de Marx de lidar com categorias que seriam chamadas mais tarde de Materialismo histórico - concepção materialista da história. Tem-se argumentado que que a obra contém manifestações de anti-semitismo - ver seção Interpretação abaixo.

O ensaio critica dois estudos sobre a tentativa dos judeus de conseguir emancipação política na Prússia de autoria de outro jovem hegeliano, Bruno Bauer. Bauer argumentou que os judeus somente poderiam atingir a emancipação política se renunciassem a sua consciência religiosa particular, uma vez que a emancipação política requer um estado secular, que ele assume não deixar muito "espaço" para identidades sociais como a religião. De acordo com Bauer, as demandas religiosas são incompatíveis com a idéia de "Direitos do Homem." A emancipação política verdadeira, para Bauer, requer a abolição da religião.

Marx usa o ensaio de Bauer como uma oportunidade para a sua própria análise dos direitos liberais. Marx argumenta que Bauer está equivocado na sua suposição de que num "estado secular" a religião não iria desempenhar um papel proeminente na vida social, e, como exemplo se refere à persistência da religião nos Estados Unidos, que, ao contrário da Prússia, não tinha religião de estado. Na análise de Marx, o "estado secular" não está em oposição à religião, na verdade a pressupõe. A remoção das qualificações de cidadãos relacionadas à religião ou à propriedade não significava a abolição da religião ou da propriedade, apenas introduzia uma nova forma de ver o cidadão desconexo dessas coisas.

[1] Nessa nota Marx vai além da questão da liberdade religiosa em direção à sua preocupação maior - a análise de Bauer da "emancipação política." Marx conclui que enquanto indivíduos podem ser 'espiritualmente' e 'politicamente' livres em um estado secular, eles ainda podem estar presos à restrições materiais sobre a sua liberdade pela desigualdade de renda, uma suposição que iria formar mais tarde de sua crítica ao capitalismo.

No ponto de vista de Marx, Bauer falha em distinguir emancipação política e humana: como assinalado acima, a emancipação política em um Estado moderno não requer que os judeus (ou os cristão, por esse motivo) renunciem à religião; apenas a emancipação humana completa envolveria o desaparecimento da religião, mas isso ainda não seria possível, não "na a ordem mundial ora existente".

Na segunda parte do ensaio (que é significativamente mais curta, no entanto uma das mais discutidas e citadas atualmente), Marx questiona a análise "teológica" de Bauer do judaísmo e sua relação com o cristianismo. Bauer afirmara que a renúncia da religião seria especialmente difícil para os judeus, uma vez que judaísmo é, a seu ver, um estágio primitivo no desenvolvimento do cristianismo; assim, para alcançar a liberdade através da renúncia da religião, os cristãos teriam que atravessar apenas um estágio, enquanto os judeus teriam de atravessar dois. Em resposta a isso, Marx argumenta que a religião judaica não precisa ter todo o significado que assume na análise de Bauer, porque ela é apenas um reflexo da vida econômica dos judeus. Esse é o ponto de partida de um argumento complexo e um tanto metafórico que parte do estereótipo do judeu como um "trambiqueiro" financeiramente hábil e estabelece uma conexão entre o judaísmo enquanto religião e a economia da sociedade burguesa contemporânea. Dessa forma, a religião judaica não apenas não precisaria desaparecer naquela sociedade, como argumenta Bauer, mas é na verdade parte natural dela. Tendo equacionada figurativamente o "judaísmo prático" com "trambicagem", Marx conclui que "os cristãos tornaram-se judeus"; e, em última instância, é a humanidade (tanto cristãos quanto judeus[2]) que necessitam se amancipar do judaísmo ("prático"). [3] Excertos desse trecho do ensaio são frequentemente citados como prova do anti-semitismo de Marx. Para análise a esse respeito, ver a seção Interpretações.

Zur Judenfrage foi primeiramente publicado por Marx e Arnold Ruge em Fevereiro de 1844 no Deutsch–Französische Jahrbücher. De dezembro de 1843 a outubro de 1844, Bruno Bauer publicou o mensal Allgemeine Literatur-Zeitung (Gazeta Literária Geral) em Charlottenburg (hoje Berlim). Nele, ele respondeu às críticas feitas aos seus próprios ensaios sobre a questão judaica feitas por Marx e outros. Então, em 1845, Friedrich Engels e Marx publicaram a polêmica crítica dos Jovens Hegelianos intitulada Sagrada Família. Em partes[4] do livro, Marx novamente apresentou sua visão, distinta da de Bauer, sobre a questão judaica e a emancipação política e humana.

Uma tradução francesa apareceu em 1850 em Paris no livro 'Qe'est-ce que la bible d'apres la nouvelle philosophie allemand, de Hermann Ewerbeck.

Em 1879, o historiador Heinrich von Treitschke publicou o artigo Unsere Aussichten (Nossos Prospectos), no qual ele demandou que os judeus fossem assimilados à cultura germânica e descreveu os imigrantes judeus como uma ameaça à Alemanha. Esse artigo inflamaria uma controvérsia, à que o jornal Sozialdemokrat, editado por Eduard Bernstein, reagiu republicando quase a totalidade da segunda parte de Zur Judenfrage em junho e e julho de 1881.

O ensaio foi republicado na íntegra em outubro de 1890 no Berliner Volksblatt, então editado por Wilhelm Liebknecht. [5]

Uma tradução para a língua inglesa de Zur Judenfrage foi publicada juntamente com outros artigos de Marx em 1959 sob o título "A World Without Jews".[6] O editor, Dagobert D. Runes, tinha a intenção de revelar o alegado anti-semitismo de Marx.[7] Essa edição é criticada porque o leitor não é informado que seu título não da autoria de Marx e por distorções no texto.[8]

Um manuscrito do ensaio ainda não foi transmitido.[5]

INTERPRETAÇÕES

Hyam Maccoby tem argumentado que o anti-semitismo de Marx se manifesta primeiramente no seu ensaio de 1843, "Sobre a Questão Judaica." Nele Marx argumenta que o mundo moderno comercializado é o triunfo do judaísmo, uma pseudo-religião cujo deus é o dinheiro. Maccoby sugere que Marx ficava constrangido por causa das suas origens judias e usava os judeus como um "yardstick of evil." Em anos posteriores, o anti-semitismo de Marx era na sua maior parte limitado a cartas e conversas privadas por causa da forte identificação pública com o anti-semitismo que tinham seus inimigos políticos tanto à esquerda (Pierre-Joseph Proudhon e Mikhail Bakunin) e à direita (a aristocracia e a Igreja).[9] Bernard Lewis encontrou muitas indicações de linguagem anti-semita nos trabalhos posteriores de Marx. Por exemplo, em um artigo Marx fala de judeus poloneses como "a mais suja das raças."[10]

De acordo com vários acadêmicos, para Marx os judeus eram a corporificação do capitalismo e os criadores de todos os seus males. A identificação de Marx do judaísmo com o capitalismo, junto com seus pronunciamentos sobre os judeus, influenciaram fortemente movimentos socialistas e moldaram suas atitudes e políticas e relação aos judeus. Seu ensaio influenciou anti-semitas nacional-socialistas, soviéticos e árabes.[11]

Abram Leon, no seu livro The Jewish Question (publicado em 1946)[12] examina a história dos judeus de um ponto de vista materialista. De acordo com Leon, o ensaio de Marx afirma que “não é necessário começar pela religião para explicar a história judaica; pelo contrário: a preservação da religião ou nacionalidade judaica pode ser explicada somente pelo 'judeu real', isto é, pelo judeu no seu papel econômico e social”.

Isaac Deutscher (1959)[13] compara Marx com Elisha ben Abuyah, Bento de Espinosa, Heinrich Heine, Rosa Luxemburgo, Leon Trotsky, e Sigmund Freud, todos tidos por ele como hereges que trasncendem o judaísmo, e no entanto ainda pertencendo à tradição judaica. De acordo com Deutscher, a “idéia de socialismo e de sociedade sem classes ou estado” de Marx expressada no ensaio é tão universal como a ética e o Deus de Spinoza.

Shlomo Avineri (1964)[14], enquanto considera o anti-semitismo de Marx como um fato amplamente reconhecido, assinala que a crítica filosófica de Marx sobre a emancipação judaica não o teria levado a rejeitar a emancipação como um objetivo político imediato.[14] Em uma carta a Arnold Ruge, escrita em março de 1843, [15] Marx escreve que ele tinha a intenção de apoiar uma petição dos judeus à Assembléia Provincial. Ele explica que apesar do fato dele detestar o judaísmo como religião, ele também permanece não convencido da visão de Bauer (de que os judeus não deveriam ser emancipados antes de abandonarem o judaísmo, ver acima).

No seu livro Por Marx (1965), Louis Althusser afirma que “em Sobre a Questão Judaica, Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, etc., e até geralmente em Sagrada Família (...) Marx estava meramente aplicando a teoria da alienação, isto é, e teoria da 'natureza humana' de Feuerbach, à política e às atividades concretas do homem, antes de estendê-la (em grande parte) à economia política nos Manuscritos”.[16] Ele se opõe a uma tendência que considera que o “Capital não é mais lido como Sobre a Questão Judaica, Sobre a Questão Judaica é lido como se fosse o Capital”.[17] Para Althusser, o ensaio “é um texto profundamente 'ideológico'o”, “comprometido com a luta pelo comunismo”, mas sem ser marxista; “então ele não pode, teoricamente, ser identificado com os últimos textos que definiriam o materialismo histórico”.[18]

David McLellan, no entantor, tem argumentado que "Sobre a Quastão Judaica" deve ser compreendido em termos do debate de Marx com Bruno Bauer a respeito da natureza da emancipação política na Alemanha. De acordo com McLellan, Marx usou a palavra "Judentum" no seu sentido coloquial de "comércio" para argumentar que os alemães sofrem de capitalismo e devem ser dele emancipados. A segunda metade do ensaio de Marx, conclui McLellan, deve ser lido como "um trocadilho estendido às custas de Bauer."[19].

Hal Draper (1977)[20] observou que a linguagem da Parte II de Sobre a Questão Judaica seguiu a visão do papel dos judeus dado no ensaio On the Money System do judeus socialista Moses Hess .

Stephen Greenblatt (1978)[21] compara o ensaio com a peça de Christopher Marlowe, The Jew of Malta. De acordo com Greenblatt, “ambos escritores esperam trazer atenção à atividade vista como alienígena e ainda assim central para a vida da comunidade e dirigir a ela o sentimento anti-semita da audiência”. Greenblatt está atribuindo a Marx uma “afiada, até histérica, negação do seu background religioso”.

Y. Peled (1992)[22] vê Marx transpondo o debate sobre a emancipação judaica do plano teológico para o plano sociológico, assim limitando um dos principais argumentos de Bauer. No ponto de vista de Peleds, isso foi uma resposta menos que satisfatória a Bauer, mas permitiu a Marx apresentar suas próprias idéias sobre a emancipação enquanto, ao mesmo tempo, deslanchava sua crítica à alienação econômica. Ele conclui que os avanços filosóficos de Marx foram uma consequência do seu comprometimento com a emancipação judaica, e a ela integralmente relacionados.

Outros argumentam que Sobre a Questão Judaica é primariamente uma crítica dos direitos liberais em vez de uma crítica ao judaísmo e que passagens aparentemente anti-semíticas devem ser lidas nesse contexto.[23]

Para o sociólogo Robert Fine (2006)[24] o ensaio de Bauer “ecoava a representação geralmente preconceituosa do judeu como ‘mercador’ e ‘moneyman’”, enquanto que “o alvo de Marx era defender o direito dos judeus de completa emancipação civil e política (isto é, a posse de direitos civis e políticos iguais) junto com todos os outros cidadãos alemães”. Fine argumenta que “a linha de ataque que Marx adota não não tem o intuito de contrastar o rude estereótipo que Bauer tem dos judeus com a real situação dos judeus na Alemanha atual”, mas sim o de “revelar que Bauer não tinha a menor noção da natureza da democracia moderna”.

Enquanto o sociólogo Larry Ray em sua resposta (2006)[25] reconhece a leitura de Fine do ensaio como uma irônica defesa da emancipação judaica, ele assinala a polivalência da linguagem de Marx. Ray traduz uma frase de Zur Judenfrage e a interpreta como um oposição assimilacionista “na qual não há espaço dentro da humanidade emancipada par os judeus como uma identidade étnica ou cultural separada”, e que advoga “uma sociedade em que a diferenca, tanto cultural como econômica é eliminada”. Aqui Ray enxerga Marx em um a “linha de pensamento esquerdista que tem se mostrado incapaz de abordar formas de opressão não diretamente ligadas à classe social”.

 

REFERÊNCIAS:

1.     Marx 1844:

[O] anulamento político da propriedade privada não apenas falha em abolir a propriedade privada como até mesmo a pressupõe. O Estado abole, a sua própria maneira, distinções devido ao nascimento, posição social, educação e profissão, quando declara que nascimento, posição social, educação ou profissão são distinções não-políticas, quando proclama, sem levar em conta essas distinções, que todo membro da nação é um participante igual da soberania nacional, quando trata todos os elementos da vida real da nação do ponto de vista do Estado. Ainda assim, o Estado permite à propriedade privada, educação, ocupação, que ajam à sua maneira - i.e., Nevertheless, the state allows private property, education, occupation, to act in their way – i.e., enquanto propriedade privada, educação, profissão, e a fim de exercer a influência da sua natureza especial. Longe de abolir estas reais distinções, o Estado apenas existe na pressuposição da sua existência; ele se sente um Estado político e assevera sua universalidade somente em oposição a esses elementos de seu ser.

2.     Marx 1844:

Por outro lado, se o judeu reconhece que essa sua natureza prática é fútil e trabalha no sentido de abolí-la, ele se dissocia do seu desenvolvimento anterior, trabalha pela emancipação humana e se volta contra a expressão prática suprema do auto-estranhamento.

3.     Marx 1844:

O judeu se emancipou de maneira judaica, não apenas porque ele adquiriu poder financeiro, mas também porque, inclusive através dele, o dinheiro se tornou o poder do mundo e o espírto judeu prático se tornou o espírito prático das nações cristãs. Os judeus se amanciparam na mesma medida em que os cristãos se tornaram judeus.

...

Na análise final, a emancipação dos judeus é a emancipação da humanidade do judaísmo.

4.     Engels, Marx: The Holy Family 1845, Chapter VI, The Jewish Question No. 1, No. 2, No. 3

5.     a b Marx-Engels Gesammtausgabe (MEGA), Volume II, apparatus, pp. 648 (German) Dietz, Berlin 1982

6.     A World Without Jews, resenha em: The Western Socialist, Vol. 27 - No. 212, No. 1, 1960, pgs. 5-7

7.     Marx and Anti-Semitism, discussão em: The Western Socialist, Vol. 27 - No. 214, No. 3, 1960, pgs. 11, 19-21

8.     Draper 1977, Note 1

9.     Hyam Maccoby. Antisemitism and Modernity: Innovation and Continuity. Routledge. (2006). ISBN 041531173X p. 64-66

10.  Bernard Lewis. Semites and Anti-Semites: An Inquiry into Conflict and Prejudice. (1999). W. W. Norton & Company. ISBN 0393318397 p.112

11.  Edward H. Flannery. The Anguish of the Jews: Twenty-Three Centuries of Antisemitism. Paulist Press. (2004). ISBN 0809143240 p. 168, Marvin Perry, Frederick M. Schweitzer. Antisemitism: Myth and Hate from Antiquity to the Present. Palgrave Macmillan. (2005). ISBN 1403968934 p. 154-157

12.  Leon 1950, Chapter One, Premises

13.  Isaac Deutscher: Message of the Non-Jewish Jew na revista American Socialist 1958

14.  a b Avineri, Shlomo (1964). "Marx and Jewish Emancipation". Journal of the History of Ideas 25 (3): 445-50.

15.  “(...) Eu acabo de receber a visita do chefe da comunidade judaica daqui, que me pediu que escrevesse uma petição em nome dos judeus a Assembléia Provincial e eu estou disposto a fazê-la. Não importa o quanto eu deteste a fé judaica, a visão de Bauer me parece demasiado abstrata. O ponto é fazer tantas brechas quanto possível no Estado cristão e incorporar nele tanto quanto podemos do que é racional. Pelo menos, deve ser tentado -- e a amargura cresce com cada petição que é rejeitada sob protestos”, postscript de uma carta de Marx a Arnold Ruge em Dresden, escrita em: Colônia, 13 de março de 1843

16.  Althusser 1965, Part One: 'Manifestos Filosóficos' de Feuerbach, publicado primeiramente em La Nouvelle Critique, em dezembro de 1960.

17.  Althusser 1965, Part Two: On the Young Marx: Theoretical Questions, apareceu primeiro em La Pensée, março-abril de 1961

18.  Althusser 1965, Part Five: ‘The 1844 Manuscripts’, apareceu primeiramente em La Pensée, fevereiro de 1963.

19.  David McLellan: Marx before Marxism (1970), pp.141-142

20.  Draper 1977

21.  Stephen J. Greenblatt: Marlowe, Marx, and Anti-Semitism, in: Critical Inquiry, Vol. 5, No. 2 (Winter, 1978), pp. 291-307; Excerto

22.  Y. Peled: From theology to sociology: Bruno Bauer and Karl Marx on the question of Jewish emancipation, in: History of Political Thought, Volume 13, Number 3, 1992, pp. 463-485(23); Abstract

23.  Brown, Wendy (1995), "Rights and Identity in Late Modernity: Revisiting the 'Jewish Question'", in Sarat, Austin; Kearns, Thomas, Identities, Politics, and Rights, University of Michigan Press, pp. 85-130

24.  Robert Fine: Karl Marx and the Radical Critique of Anti-Semitism in: Engage Journal 2, May 2006

25.  Larry Ray: Marx and the Radical Critique of difference in: Engage Journal 3, September 2006.

 

 

SAMUEL BECKETT

PING

Trad. Haroldo de Campos e Maria Helena Kopschitz

Beckett em Londres, por John Minihan 

 

1.      Tudo sabido tudo alvo nu alvo corpo fixo uma jarda pernas juntas como cerzidas.

2.      Clarão calor alvo chão uma jarda quadrada nunca visto.

3.      Alvas paredes uma jarda por duas alvo teto uma jarda quadrada nunca visto.

4.      Nu alvo corpo fixo os olhos só tão-só.

5.      Traços borrões gris-claro quase alvo no alvo.

6.      Mãos pensas palmas espalmes alvos pés calcanhares juntos ângulos reto.

7.      Clarão calor alvos planos brilhando alvos nu alvo corpo fixo ping fixo alhures.

8.      Traços borrões signos não senso gris claro quase alvo.

9.      Nu alvo corpo fixo alvo no alvo inviso.

10.   Só olhos só tão-só azul claro quase alvo.

11.   Cabeça ereta olhos azul claro quase alvo silêncio dentro.

12.   Breves sussurros só tão-só quase nunca tudo sabido

13.   Traços borrões signos não senso gris claro quase alvo.

14.   Pernas juntas como cerzidas calcanhares juntos ângulo reto.

15.   Traços sozinhos não findos dados negros gris claro quase alvo o alvo.

16.   Clarão calor alvas paredes brilhando alvas uma jarda por duas.

17.   Nu alvo corpo fixo uma jarda ping fixo alhures.

18.   Traços borrões signos não senso gris claro quase alvo.

19.   Alvos pés artelhos juntos como cerzidos calcanhares juntos ângulo reto invisos.

20.   Olhos sozinhos não findos dados azul claro azul quase alvo.

21.   Sussurro só tão-só quase nunca um segundo talvez não sozinho.

22.   Dado rosa só tão só nu alvo corpo fixo uma jarda alvo no alvo inviso.

23.   Tudo alvo tudo sabido sussurros só tão-só quase nunca sempre o mesmo tudo sabido.

(...)

49. Ping talvez não sozinho um segundo com imagem sempre a mesma mesmo tempo um pouco menos essa tanta memória quase nunca ping silêncio.

50. Dado rosa só tão-só unhas caídas alvo findo.

51. Longo cabelo caído alvo inviso findo.

52. Alvas escaras invisas mesmo alvo carne rasgada há muito dado rosa só tão-só.

53. Ping imagem só tão-só quase nunca um segundo luz tempo azul e alvo ao vento.

54. Cabeça ereta nariz ouvidos alvos furos boca alva cerzida sutura invisa finda.

55. Só os olhos dados azul fixos frente azul claro quase alvo só cor sozinha nãofinda.

56. Clarão calor alvos planos brilhando alvo um só brilhando alvo infinito mas isso sabido não.

57. Ping uma natureza só tão-só quase nunca um segundo com imagem mesmo tempo um pouco menos azul e alvo ao vento.

(...)

66. Alvo teto nunca visto ping há muito só tão-só quase nunca um segundo luztempo alvo chão nunca visto ping há muito talvez ali.

67. Ping há muito só tão-só talvez um senso uma natureza um segundo quase nunca azul e alvo ao vento essa tanta memória então nunca.

68. Alvos planos nenhum traço brilhando alvos um só brihando alvo infinito ma sisso sabido não.

69. Clarão calor tudo sabido tudo alvo coração sobro sem som.

70. Cabeça ereta olhos alvos fixos frente há muito ping último sussurro um segundo talvez não sozinho olho desbrilho negro e alvo semi cerrado longos cílios suplicando ping silêncio ping fim.
 
Obs. Publicado originalmente na Folha de São Paulo, Caderno MAIS! -8/set.1996

sexta-feira, 31 de agosto de 2012


Antiterapias, de Jacques Fux

Por Jardel Dias Cavalcanti

 

A editora Scriptum acabou de lançar a obra literária Antiterapias, de Jacques Fux. Lendo o livro, imediatamente nos vem à mente a frase do poeta Wally Salomão: “A memória é uma ilha de edição”. Pois isso é o livro de Fux, a narrativa de sua memória, editada a partir de acontecimentos de naturezas diversas, das quais não temos certeza se são reais ou inventadas.

Pouco importa, como uma espécie de Capitão Ahab que persegue a baleia do seu inconsciente social, afetivo e literário, Fux nos lança num fluxo de fatos relativos à sua formação literária, sexual, emocional, existencial, política e filosófica, misturando dados da literatura que o apaixonou aos dados de sua existência em busca da auto-realização enquanto artista e no amor, não deixando ainda de lado a compreensão histórica e política do mundo.

Literatura sincera, não poupa as frustrações, as mentiras que inventa para si e para o mundo, deixando fluir de sua pena um jorro de desejos reprimidos (amor, ódio, ressentimentos, sonhos), transformados pelo escritor numa aventura literária de grande força. O resultado é capacidade de envolver o próprio leitor nas suas memórias, levando-o a investigar a si mesmo, agora com a delicada ironia de Fux, com o desprendimento de um brincalhão, que decidiu rir de si mesmo (como o filósofo exigido por Nietzsche), sofrer a céu aberto, mas com a grandeza da literatura, única possibilidade, talvez, de se transformar a vida em algo digno de ser vivido.

Em Antiterapias, Fux relata suas primeiras incursões pelas zonas do desejo sexual, seu encontro com a mulher como ser desejado, os temores e ansiedades que esse desejo de amor cria e as idealizações que dela resultam. O autor não sofre sozinho, chama seus pares literários para depor a seu favor, seja ele Proust, Borges, Pessoa, Rilke, Leminski, Perec, etc. Sabe que estes escritores fizeram da literatura a matéria da vida, o sentido do existir, como Fux o faz agora. São eles, afinal, que intensificam a existência do autor, que ama porque autores descreveram o amor antes dele. Sabe sofrer, porque soube sofrer na literatura: amou como Bovary, Paolo e Francesca, Riobaldo e Diadorin, Romeu e Julieta. A literatura foi sua educação sentimental e o resultado profundo de sua vida emocional também será a literatura.

No centro do romance, a existência particular do judeu, que dada sua formação humanística, resvala para a descrença nas tradições de seu “gueto”, despertando para o sentido da justiça política universal, que acredita ser a forma mais ousada de pensar os traumas do passado histórico que o assombram. Comovido por lembranças dolorosas, o Nazismo e as práticas da violência e arrogância alemã são julgadas por ele no seu tribunal pessoal. Inventa uma figura, um personagem, Dibouk (espécie de alma penada), que ao longo do livro o desencanta de seus desejos e sonhos e que encarna alegoricamente o maldito estado de exceção que a vida e a história impõem ao homem.

Homem que duvida, que deseja mais do que a vida pode dar, o personagem não se encontra inicialmente nas suas escolhas, buscando aqui e acolá tornar-se o gênio desejado das ciências e matemáticas. Frustra-se, pois é preciso saber frustrar-se para se encontrar. E se encontra, agora, nas letras, espaço aberto para pensar a si mesmo, ao mundo e à própria criação literária.

Espécie de romance de formação, de um retrato do artista quando jovem, Antiterapias sabe que não há cura para a vida, muito menos para a vida intensificada pela literatura. Deseja, ao contrário da sanidade/normalidade, ser e continuar gauche na vida, retirando da dor, do sofrimento, das alegrias e angústias a matéria sobre o qual o autor criará sua obra. Como Mallarmé e Proust, sabe que a vida realmente vivida é a vida da literatura ou a vida transformada em literatura. Essa que agora nos podemos ler em Antiterapias para termos de volta nossa verdadeira vida.

 

 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Travestis da Arte: Cicciolina, Michael Jackson e Andy Warhol


Cicciolina, Michael Jackson e Andy Warhol - por Jean Baudrillard

Cicciolina e Jeff Koons


Vejam a Cicciolina. Haverá encarnação mais maravilhosa do sexo, da inocência pornográfica do sexo? Contrapuseram-na a Madonna, virgem produto da aeróbica e da estética glacial, desprovida de qualquer charme e sensualidade, andróide com musculatura, que, por isso mesmo, conseguiram transformar em ídolos de síntese. Mas não é também Cicciolina uma transexual? Os longos cabelos loiros, os seios moldados em concha, as formas ideais de boneca inflável, o erotismo liofilizado de história em quadrinhos ou de ficção científica e, principalmente, o exagero do discurso sexual (nunca perverso, nunca devasso), transgressão total sob controle; a mulher ideal dos telefones rosas (minitel rose*), mais uma ideologia erótica carnívora que nenhuma mulher hoje assumiria – a não ser uma transexual, um travesti: só eles, é sabido, vivem de signos exagerados, de signos carnívoros da sexualidade. O ectoplasma carnal que é a Cicciolina encontra-se com a nitroglicerina artificial da Madonna ou com o charme andrógino e frankesteiniano de Michael Jackson. São todos mutantes, travestis, seres geneticamente barrocos, cujo visual erótico esconde a indeterminação genética. Todos são gender-benders, trânsfugas do sexo.



Vejam Michael Jackson. É um mutante solitário, precursor da perfeita mestiçagem universal, a nova raça segundo as raças. As crianças de hoje não têm bloqueios quanto a uma sociedade mestiça, esse é o universo delas, e Michael Jackson prefigura o que elas imaginam como futuro ideal. Sem esquecer que Michael fez plástica, alisou o cabelo e fez tratamento para clarear a pele, enfim, ele se constitui minuciosamente; é isso mesmo que o torna uma criança inocente e pura – o andrógino artificial da fábula que, mais do que Cristo, pode reinar no mundo e reconciliá-lo, porque é mais do que o menino-deus: é menino-prótese, embrião de toda as formas sonhadas de mutação que nos livrariam da raça e do sexo.



Poderiam também ser evocados os travestis da estética, dos quais Andy Warhol seria o emblema. Como Michael Jackson, Andy Warhol é um mutante solitário, precursor de uma mestiçagem perfeita e universal da arte, de uma nova estética segundo as estéticas. Como Jackson, é uma personagem perfeitamente artificial, também inocente e pura, um andrógino da nova geração, espécie de prótese mística e de máquina artificial que nos livra, por sua perfeição, tanto do sexo quanto da estética. Quando Warhol diz: “Todas as obras são belas, não preciso escolher, todas as obras contemporâneas se equivalem”; quando diz: “A arte está em toda parte, logo, já não existe, todo mundo é genial”, ninguém pode acreditar. Mas ele está descrevendo a configuração da estética moderna, que é a de um agnosticismo radical.

Somos todos agnósticos ou travestis da arte ou do sexo. Já não temos convicção estética nem sexual, mas professamos todas.


 

In: BAUDRILLARD, Jean. A transparência do mal: ensaio sobre os fenômenos extremos.  Campinas: Papirus, 1992.

*Minitel rose: é um sistema francês de microcomputador acoplado ao telefone, que permite acesso a fontes de informações oficiais e particulares de todo tipo, também permite a troca de mensagens de caráter amoroso, erótico ou obsceno.

FOTOS:











domingo, 8 de abril de 2012

A MULHER E A CASA - João Cabral de Melo Neto




Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.